Goiânia – Foi com enorme prazer que assisti a “Intocáveis”, um filme francês que, apesar do título, nada tem a ver com os roteiros de ação. Trata de preconceito, amizade e amor, com uma trilha sonora deliciosa, que vai de Vivaldi e Bach a Earth, Wind and Fire e Kool & The Gang e nos leva do riso à contemplação em minutos.
Baseado em fatos reais, o filme conta a história de Philippe, um refinado multimilionário tetraplégico francês, que precisa de um enfermeiro para auxiliá-lo em suas atividades rotineiras. O contratado é Driss, um senegalês que vive nos subúrbios de Paris, que acabara de cumprir uma pena de seis meses de prisão e não tem qualquer formação para o cargo.
Os conflitos e transformações que ocorrem em meio à convivência de duas pessoas de origens tão distintas me fizeram refletir sobre a maneira como lidamos com as diferenças e também sobre a minha história pessoal. Assim como Driss, eu, uma imigrante vinda de um “país em desenvolvimento”, também fui parar na casa de uma legítima representante da aristocracia europeia.
Há dez anos, quando iniciei meu mestrado na Bélgica, reduzir despesas tornou-se um lema para mim. Os gastos com aluguel e alimentação são tão altos na Europa, que fazem com que qualquer estudante que nunca tenha se importado em poupar no seu país natal aprenda a contar cada moeda, a não gastar com nada que não seja absolutamente essencial e a viver com o pouco.
Um dia me falaram de uma senhora de 88 anos de idade que estava precisando de uma dama de companhia. Ela era muito rica e saudável, morava numa mansão enorme, numa rua bem localizada de Liège, mas sentia falta de alguém que pudesse ficar com ela à noite e a quem ela pudesse recorrer caso algo grave acontecesse. Em troca disso, ofereceria um quarto na casa.
Candidatei-me ao cargo e fui escolhida. E foi assim que, em abril de 2003, pisei pela primeira vez na casa onde eu iria morar por mais um ano e meio, até a minha volta ao Brasil. Passada a euforia inicial de saber que eu não gastaria mais com aluguel e que teria um quarto e um banheiro só meus, numa casa linda, perto do ponto de ônibus para ir à universidade, me bateu o desespero.
Em troca dos benefícios, eu estava decretando naquele instante que só teria vida social uma vez por semana, pois, no restante, ficaria à disposição de uma senhora que nunca vi na vida. Eu, que nunca havia morado na casa de um estranho antes, teria de dar satisfação de cada passo, de pedir permissão para levar visitas. Teria de voltar à rotina dos meus 15 anos de idade.
Na impossibilidade de voltar atrás, respirei fundo e resolvi encarar o desafio. Todas as noites eu me sentava à sala, ao lado dela, e assistia aos programas de televisão. “Está tudo bem? A senhora precisa de alguma coisa?” eram as perguntas básicas. Se a resposta fosse “Não, obrigada” (e eu rezava para que fosse), então ia para o meu quarto ler, ouvir música ou dormir.
Um dia tivemos nossa primeira discussão. Ela não entedia a razão de eu tomar banho todos os dias, inclusive no inverno (quando fazia 15º C negativos), gastando cerca de dez minutos no chuveiro. Achava isso um absurdo e dizia que eu teria dermatite, que meu cabelo iria cair, que ela iria à falência com um consumo tão alto de água, que era uma insanidade como poucas já vistas em toda a vida dela.
Então eu expliquei que, ao sair da universidade, passava o dia fazendo faxina pesada em indústrias e escritórios enormes, ou então trabalhando como cozinheira num restaurante italiano, e que era impossível dormir cheirando à desinfetante, gordura e outras coisas tão agradáveis quanto. Ela ficou com vergonha e me pediu desculpas. Disse que nunca imaginou que eu tivesse de trabalhar tanto.
Eu lhe disse que não apenas eu, como a maioria dos outros estudantes brasileiros que estavam em Liège, tínhamos essa rotina porque queríamos fazer um mestrado internacional, mas não éramos ricos e precisávamos nos virar. Ela se mostrou surpresa com a garra e o desprendimento dos brasileiros. Me pediu que contasse mais detalhes e ficou admirada com nossa coragem e disposição.
Por outro lado, ela me explicou que sofreu amargamente durante a Segunda Guerra Mundial, quando tinha apenas dois litros de água por dia para o consumo e limpeza dela e das duas filhas pequenas, e algumas batatas e maçãs, que precisavam durar meses. Contou-me da fome, do frio e do medo que passaram e mostrou que não era pão-dura, mas uma sobrevivente de guerra, para quem pão e água valem ouro.
Alguns meses depois, eu soube da traição de um ex-namorado e fiquei dias me debulhando em lágrimas. Uma tarde ela entrou no meu quarto e disse, seriamente: “Escute, não tenho nada com a sua vida, mas se permite um conselho, está na hora de você aprender a cair de cabeça erguida. Se essa é a primeira rasteira que a vida lhe dá, prepare-se, pois virão outras. E você não pode se curvar a elas”.
Vendo o meu espanto, ela completou: “Perdi meus pais quando ainda era criança e fiquei viúva duas vezes. Vi muitas amizades irem pelo ralo, pois as pessoas queriam apenas o meu dinheiro. Mas não deixo que sintam piedade de mim por isso, porque não quero a pena alheia. Quero o respeito. Levante essa cabeça, tire esse moletom velho, se apronte e vamos passear”, ordenou.
E então ela me levou a um restaurante da cidade onde eu jamais teria dinheiro para ir. E falou tantas coisas engraçadas e bobas que, ao final da noite, eu já estava com a barriga doendo de tanto rir. Esse foi apenas o primeiro passeio de inúmeros outros que fizemos juntas. Ela me levava a bons cafés e excursões e eu deixava que aquela senhora idosa me ensinasse a viver, a ser leve e feliz.
Nossa última discussão aconteceu por causa do meu amigo congolês. Ela olhava com cara feia para ele e mal conseguia disfarçar seu preconceito racial. Um dia, me falou com todas as letras que não gostava da minha amizade com aquele “noir”. Respondi que a questão da cor era indiferente para mim, pois ele era extremamente gentil, honesto e leal, sem contar que era o melhor aluno do mestrado.
Mas foi meu próprio amigo quem mostrou a ela a insensatez do preconceito. Sempre que a via carregando compras, ele corria para ajudá-la. Levava flores para agradá-la. Quando voltei para o Brasil, todas as vezes que ele passava pela rua dela fazia questão de apertar a campainha para dizer bom dia e saber como ela estava. Uma vez, por telefone, ela confessou: “Você estava certa, ele é um rapaz de muito valor”.
Na madrugada do dia 29 de setembro de 2004 nós nos despedimos. Eu havia concluído meu mestrado e retornaria à Goiânia. Apesar de ter sonhado tanto com esse dia, estranhamente eu estava triste. Ao vê-la me abraçar e, chorando, dizer que me desejava toda a felicidade do mundo, entendi que era porque um pedaço meu estava ficando lá. E um pedaço dela vinha comigo.
Em vários natais e aniversários que se seguiram telefonei para ela e conversamos muito. Até que um dia, liguei e ninguém atendeu. Liguei por semanas, por um mês inteiro, e nada. Uma grande amiga se foi. Tão diferentes e tão distantes, a vida nos uniu primeiro pela necessidade, mais tarde pelo afeto. Intocáveis antes do encontro. Transformadas e mais humanas depois dele.