São Paulo – A última vez que fui às ruas em meio a uma multidão por uma causa política foi em 1992. Eu só me lembro de muita gente ao meu redor. Eu tinha três anos e estava no colo da minha mãe. De lá para cá, nunca mais vi nada parecido no Brasil como o que assisti segunda-feira nas ruas de São Paulo. 20 anos depois, é claro que muito mudou e melhorou nesse país. Mas, certamente, ainda há muito a ser feito.
Quem sempre assistia apático pela televisão as decisões no congresso nacional, odiava política e xingava em mesa de bar de corruptos todos políticos indistintamente, percebeu que faz parte disso tudo e que tem poder de mudança.
Em São Paulo as pessoas se abraçavam, riam. Parecia ser uma alegria ter se tocado que ir às ruas não era algo tão difícil e, ao mesmo tempo, tão forte. Hoje fiquei arrepiada de ver que todo mundo do meu Facebook (pessoas de todo tipo) se mobilizavam para ir às ruas em Goiânia.
A população entendeu: ir às ruas funciona. Gritar, protestar, agir para além de Facebook “adianta”. As tarifas em Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e tantas cidades sofreram redução.
Quem está nas ruas, como o Facebook bem nos diz, é a classe média. É de se compreender: quem paga a mesma carga tributária de um milionário, ganhando bem menos. Paga caro por serviços que não tem acesso ou recebe com péssima qualidade. É essa mesma classe média que derrubou Collor e a ditadura.
Quem acordou hoje, desde 1992, foi essa classe média que percebeu que não se deve engolir calado tudo que poder público delibera. Percebeu que a mesma política feita em gabinetes atinge nosso bolso, respeito e decência.
Lugar de política é na rua. Negociações se fazem com gritos. Talvez os 20 anos sem gritar em massa fizeram com que o povo tivesse muito a falar agora. É uma lista de desrespeitos e aberrações a que somos submetidos. Entendo todos os nós nas gargantas e a hora, agora, é mesmo de ir às ruas gritar.
Mas deve-se entender: não podemos protestar de 20 em 20 anos. Manifestações tomando país todo não vão resolver corrupção ou problemas graves de nossa democracia representativa.
Manifestar e protestar devem ser atos sistemáticos com pautas delineadas. Li uma placa em São Paulo dizendo que a próxima manifestação é nas urnas. Não, não é só por aí. Votar é um ato de democracia. Saber quem é seu candidato, acompanhar seu mandato e ficar no pé é um ato de democracia. Outro é ir às ruas contestar quando essa representação não se efetiva. Todos esses atos são necessários e fazem parte de uma democracia.
O que o brasileiro deve entender é que ir às ruas deve ser tão natural e cívico quanto votar de quatro em quatro anos. Aumentou passagem? Rua! Cortou lei Goyazes? Rua! Parcelou data-base? Rua! Aprovou projeto de cura-gay na comissão de direitos humanos? Rua! Vão votar PEC-37 e estatuto do nascituro? Rua. A manifestação é a arma que se tem para agir contra abusos de quem nos representa. E quem deve ir para rua? Todo mundo. Provavelmente, nas ruas de Goiânia nessa quinta-feira, muitas pessoas não usam transporte público. Arriscaria que nem metade. Mas isso, é sim, problema de todo mundo.
Eu defendo a rua como casa do povo. Defendo as manifestações como atos frequentes de uma democracia. Que todos participem de discussões daquilo que diz respeito a todo mundo. Que todo mundo se envolva na discussão de sua cidade e seus problemas. Sustento que todo mundo deve debater reforma política, educação, saúde, direitos humanos. Defendo que política não seja atividade de alguns, mas de todos os cidadãos.
Para finalizar, coloco uma frase que estava no facebook de um amigo de Bragança, Portugal, que está fazendo intercâmbio em Goiânia.“Na escola diziam-me que o Brasil é um país do 3º mundo!! Eu quase acreditei!!! Mas quando estás no Brasil e a própria escola te dispensa das aulas para apoiares as manifestações. Aí eu digo para a minha escola!!! Tu é que és de 3º mundo!”
Aos olhos do mundo crescemos economicamente. Que cresçamos em nossa grandeza política. É isso que nos fará uma grande nação. Às ruas, Brasil!