Merece aplausos efusivos a iniciativa encabeça pelo zagueiro Paulo André do Corinthians e pelo meia Alex do Coritiba. Poucos jogadores ao longo da história do futebol brasileiro tiveram a coragem de questionar qualquer coisa que envolvesse a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Não sei se por falta de compreensão do que viviam (menos provável, acredito), não sei se por medo de retaliações (colocaria todas minhas fichas aqui). O fato é que ao questionarem o calendário 2014 proposto pela entidade, ambos entraram para a história. Repito: eles merecem aplausos de sobra.
Com o apoio de 75 jogadores e batizado de Bom Senso F.C., o movimento almeja voz ativa junto à entidade maior do esporte mais popular do país para tentar rediscutir o que foi colocado para o ano da Copa do Mundo no Brasil. O movimento conta com o apoio também das comissões técnicas de Cruzeiro, Corinthians e Botafogo. É digno de nota que apenas dois jogadores que atuam no futebol goiano são signatários do manifesto: os esmeraldinos Rodrigo e Neto Baiano. Fico triste por não termos mais atletas que jogam nos nossos times na vanguarda de um debate tão relevante.
Somando todas as datas que um time pode jogar no próximo ano no Brasil, é possível chegar a 83 partidas. Na Itália são 58. Na Espanha, 62. Caso sejam respeitados os direitos trabalhistas das férias de 30 dias ininterruptos, sobram somente cinco dias para a pré-temporada. O período de preparação é fundamental para a parte física dos atletas e eles pedem mais tempo para esse trabalho. Considero esse pleito justo.
Outro ponto problemático diz respeito ao número de partidas jogadas a cada 30 dias. O grupo pede que tenhamos um limite de sete. O calendário da CBF coloca entre oito e nove para o mesmo período. Mais uma vez, acredito que o pedido dos jogadores tem embasamento.
Consta também na pauta apresentada a adequação do calendário brasileiro ao europeu. Outros países já fizeram isso, como Argentina, Uruguai e México. Nesse quesito, discordo dos jogadores. A tradição do hemisfério Norte é do ciclo da vida não respeitar o calendário tradicional e sim o das quatro estações do ano. Faz sentido. Afinal de contas, o inverno para aquelas bandas não é mole. Nos meses em que o sol aparece, é preciso aproveitar! Não é só o futebol que tem esse ciclo. Escolas e empresas também pegam o verão como o período de férias para só voltar à labuta ao final dessa estação.
No nosso país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, não tem razão tal adequação. Talvez ela se justifique por questões de mercado, para facilitar transferências e não desfalcar as equipes daqui no meio do Brasileirão. Mas mesmo entendendo esse ponto, ainda penso que seguir o ano tal qual fazemos é o mais interessante por respeito à nossa tradição como um todo.
Por fim, os jogadores querem garantias de que receberão seus salários em dia, exigindo que os clubes se organizem e que cumpram o que foi acertado em contrato. Nada mais justo do que esse pedido.
Mesmo com minha discordância pontual, torço para que o Bom Senso F.C. seja exitoso. Se os protagonistas do espetáculo não tomarem as rédeas do futebol, os velhacos o farão. Como vêm fazendo desde sempre. Está na hora de dizer basta para essa turma.