Noite de sábado. Alguns amigos se encontram em um bar para colocar o papo em dia. Aquele tempinho que você tem para saber o que as pessoas andam fazendo, quais seus planos para as férias, se estão achando que o Atlético Mineiro tem mesmo time para ser campeão ou é só cavalo paraguaio, tomar uma cerva e conversar sobre a vida que se leva. Um momento raro na agenda de todos nos dias de hoje, onde os compromissos profissionais se avolumam mais que dívida do cheque especial no final de mês.
Ao invés de boas risadas e conversas em voz alta, o que vemos são os olhares para baixo em direção às pequenas telas e dedos arrastando em procura do contato com o mundo, quando, na verdade, o que importa de fato está a pouquíssimos metros de você. Não tenho dúvidas de que o celular é o pior câncer dos dias de hoje. Seja livre, jogue seu celular na parede e vá para a vida.
Mesma coisa observei no almoço de domingo. Uma família de quatro membros estava na mesa ao lado, um casal e duas garotas. Todos bebiam refrigerante, cada um com sua garrafinha de vidro. O silêncio sepulcral que emanava da mesa era ensurdecedor. Enquanto aguardavam que os pratos fossem servidos, os quatro não conversavam, não se olhavam, não interagiam.
Todos tinham coisas mais importantes para fazer em seus celulares. Não estavam telefonando para ninguém, mas brincando com algum joguinho estúpido, navegando na internet, atualizando as mensagens, vendo fotinhas dos amigos no Instagram… Enfim, deixando a vida correr pela telinha enquanto o entediante mundo real agonizava naquela mesa. Seja radical, jogue seu celular na parede e vá viver com gente de carne e osso.
A dependência que estamos desenvolvendo junto a esse maldito aparelhinho é preocupante. Não conseguimos nos desprender dele por momento algum. Seja no banho, no cinema, no encontro com os amigos, no sexo… Ficam preocupados com o vício de uma parcela da população em drogas ilícitas só por que ainda não se atentaram ao mal social desse verme que está em nossos bolsos e bolsas. Vem transvestido de liberdade mas é escravizante. Vende interação mas provoca dependência. Promete facilidade mas nos deixa tapados. Seja esperto, jogue seu celular na parede e vá para o mundo real.
E as empresas de telefonia não estão satisfeitas. Empurram aparelhos e mais aparelhos em nossas costas. Estou conformado com o que tenho e não pretendo mudar. Não há uma semana que não me ligam oferecendo outro plano, outro aparelho, outra vantagem, outro negócio. E minha grande vontade era só não ter mais telefone celular algum. Falam que é de graça devido ao bom relacionamento que mantenho com a corporação.
Se eu fosse realmente inteligente, não tinha nenhum tipo de relacionamento com empresa que lesa meu direito de sossego de forma tão reiterada. Não saio dessa nem sei o porquê. Deve ser Síndrome de Estocolmo. Eu deveria ser um pouco mais corajoso, jogar meu celular na parede e nunca mais mexer com esse tipo de porcaria.