Na última sexta-feira, assisti Lemmy depois de quase um ano que foi lançado. Típico. Nunca vejo um filme logo na sequência do lançamento. Não gosto de ser influenciado pelo hype. Espero a onda baixar, os sentimentos adormecerem e o endeusamento/ódio perante o filme ficarem esquecidos para que eu tenha meu olhar. Acho que esse distanciamento deixa minha análise mais justa. Pode ser só frescura, e a probabilidade de ser isso predomina, mas é assim que eu gosto. O filme dos diretores Greg Olliver e Wes Orshoski passou no Multishow HD e, como eu estava em casa de bobeira, não vacilei.
Para quem não sabe do que se trata, Lemmy é um documentário biográfico sobre o líder do Motörhead, Lemmy Kilmister. Os caras acompanharam por três anos a rotina do vocalista/baixista inglês que mora há mais de 20 anos em Los Angeles. Enquanto isso, vão conversando com gente como Dave Grohl, Slash, Ozzy Osbourne, os caras do Metallica, Ice-T, entre tantos outros rockstars sobre a influência de Lemmy na imagem pública que se tem hoje do metal. Enquanto isso, vão resgatando a história desse que é um dos caras mais respeitados do rock mundial.
Fora as hipérboles clássicas que o envolvem e são retratadas à exaustão no filme (tipo, “Lemmy é Deus”, “Lemmy é o rock”, “Lemmy é o cara”), o mais interessante é a perspectiva humana do frontman do Motörhead que a obra consegue retratar. Na verdade, Lemmy é um cara extremamente solitário, que passa seus dias de folga em um minúsculo apartamento, cercado de artefatos de guerra que coleciona e jogando videogame. Quando se cansa, vai ao mesmo bar jogar caça-níquel e beber Jack Daniel's com Coca-Cola a noite inteira. Ou então arruma algumas anfetaminas (sua droga preferida) e vai a um clube de strippers. Uma vida que ele próprio não demonstra muita empolgação ou orgulho de levar.
A parte mais sensível é quando ele diz que a coisa mais importante da vida dele é seu filho, fruto de um relacionamento com uma groupie que perdeu a virgindade com John Lennon. Ali a figura de pai cuidadoso vem à tona. Mas é preciso lembrar que o significado de cuidado na cabeça de Lemmy é bem diferente do que está na cabeça de uma pessoa usual. Quando seu filho tinha 17 anos, Lemmy, pai zeloso, o aconselhou a nunca mexer com cocaína – afinal, as anfetaminas eram bem mais interessantes. Além disso, Lemmy conta do swing que fez com o filho, onde eles trocaram de namoradas e foram se divertir durante a noite.
O filme também é rico em imagens do passado de Lemmy, mostrando sua infância, a primeira banda em que tocou (The Rockin' Vickers) e detalhes de sua expulsão da Hawkind por conta de divergências narcóticas – enquanto os demais membros estavam na onda alucinógena, Lemmy engatava no speed e as viagens eram incompatíveis. Como forra pela demissão, o dono da verruga mais famosa do rock diz que pegou as mulheres de todos os membros da banda.
Assistir o filme é obrigatório para fãs do Motörhead e do rock em geral. E pode ser uma experiência interessante para quem não é muito ligado no assunto, já que observar de perto as nuances de alguém tão peculiar quanto Lemmy sempre é divertido. E aí, mérito dos diretores que conseguiram conquistar a confiança do biografado tradicionalmente fechado e avesso a entrevistas, captar isso na câmera e transmitir ao público.