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Les Petits Violons

16.09.2019 - 07:35:55
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Othaniel Alcântara Jr.

 

Les Petits Violons (os pequenos violinos) é uma criação do monarca francês Luís XIV (1638-1715). Sabe-se que a Petite Bande1, nome pelo qual também ficaria conhecido aquele agrupamento de músicos, esteve em atividade desde meados do século XVII até 1715, ano da morte do Rei-Sol. Era constituído, essencialmente, por instrumentos de cordas friccionadas com arco (violinos, violas etc.), embora, por vezes, tenha se apresentado também com instrumentos de sopro ou outros tipos de artefatos musicais. Os “pequenos violinos” foram posteriormente chamados de Violons du Cabinet. E, costumeiramente, seguiam o monarca francês em suas viagens.

 

Título: Um grupo de músicos tocando seus instrumentos.
Autor: Domenico Zampieri – "Le Dominiquin" (1581-1641).
Fonte: commons.wikimedia.org

 
Os musicólogos John Spitzer e Neal Zaslaw apresentam no Capítulo 3 de The birth of the orchestra: history of an institution, 1650-1815, duas fontes documentais as quais oferecem informações divergentes a respeito da origem do conjunto Les Petits Violons.
 
A primeira dessas fontes acabou se transformando no relato padrão da historiografia musical sobre esse tema. Nessa versão, o escritor Charles Perrault (1628-1703) apresenta sua convicção do fato de que Les Petits Violons teria sido criado em 1653, mais especificamente, para o comando do músico Jean-Baptiste Lully (1632-1687), amigo particular de Luís XIV. O supramencionado relato, no entanto, foi feito apenas em 1696, ou seja, mais de 40 anos após o suposto episódio e quase uma década depois do falecimento daquele músico, considerado o maior compositor do Barroco francês. 
 
A segunda narrativa, por sua vez, é mais curiosa. Uma testemunha daquela época, o cavaleiro Monsieur Dubois de Rouen, registrou em suas memórias que a criação da Petite Bande ocorreu antes da chegada de Lully à corte francesa. Tal fato teria acontecido por volta de 1645. A narrativa de Rouen esclarece que, em 1648 (e não em 1653, como afirma Perrault), o então jovem monarca de 10 anos, decidiu realizar uma serenata para sua mãe, Ana de Áustria (1601-1666). Esta foi rainha consorte da França de 1615 a 1653, além de regente, durante a menoridade de seu filho Luís XIV, entre 1643 e 1651. 
 
Para tanto, Luís teria imputado a Guillaume Dumanoir, então integrante dos famosos Vingt-Quatre Violons du Roy (24 Violinos do Rei), a tarefa de compor algumas peças para serem executadas por alguns instrumentos “bizarros” (exóticos e alternativos), além dos tradicionais violinos, comuns à época na corte francesa. Destaca-se, assim, que, nesse caso, o grupo teria se originado como uma espécie de “brinquedo” para o Rei-Sol.
 
Contudo, até a década de 1660, os documentos oficiais do Estado francês não mencionam o nome da Petite Bande. Mas é provável que, em uma primeira fase, a Banda1 "Os pequenos violinos" contasse com 19 músicos. (Grillet, 1901, p. 46). Por outro lado, a partir de 1680, tais documentos informam, por exemplo, a instrumentação mais utilizada (formada por violinos, violas e baixos), o número de membros e até mesmo os salários pagos aos músicos ao longo do tempo. A título de exemplo, podemos citar o ano de 1690, quando 21 membros receberam o salário de 600 libras anuais cada. 
 
Há evidências que sugerem que a Petite Bande era formada por jovens violinistas, via de regra, filhos dos veteranos membros dos Vingt-Quatre Violons du Roy, o conjunto musical mais antigo e importante da Chambre (Câmara) da corte francesa (MINCZUK, 2014, p.14).

Três eixos sustentavam a produção artística na corte de Luís XIV em Versalhes:

1) Chambre (Câmara), 
2) Chapelle Royale (Capela Real)
3) La Grande Écurie

Obs.: A Chambre, em particular, abrigava dois conjuntos musicais:
 

a) Les Petits Violons (Os pequenos violinos)

NOTA:

1) Banda/Band/Bande: "Esse termo foi utilizado amplamente para designar as orquestras da corte de Luís XIV. É legado pela tradição de agrupamentos musicais que uniam instrumentos de diferentes características sonoras, chamados de bandes, as bandas […]. O vocábulo passou a representar a orquestra francesa no século XVII". (Prust, 2019, p. 22).

Leia também:


Os 24 Violinos do Rei (postado em 20/4/2019)

La Grande Écurie (postado em 2/10/2019)

A música na corte do "Rei-Sol" (postado em 3/10/2019)

Lully e o "cajado" da morte (postado em 18/9/2019)

A família francesa do violino (postado em 9/3/2020).

“O que é uma orquestra?” (postado em 14/3/2019).   

Conjuntos pré-orquestrais (postado em 22/3/2019)
 

A “Orquestra” de Monteverdi (postado em 4/4/2019)

A batuta (postado em 23/5/2019) 


Atribuições do regente de orquestra (postado em 12/7/2019)

O violino e sua representação no Renascimento (postado em 12/7/2019)

O violino e suas origens (postado em 2/8/2019)

 

Livro: Les Ancètres Du Violon Et Du Violoncelle,
Les Luthiers Et Les Fabricants d'Archets
(Volume 2, p. 47)
Autor: 
Laurent Grillet
Fonte: Internet Archive
 
 

 
Referências:
 
Grillet, Laurent. (1901). Les ancêtres du violon et du violoncelle, les luthiers et les fabricants d'archets, v. 2. Paris: Charles Schmid.

Minczuk, Arcadio. (2014). O contexto histórico, político e econômico de orquestras sinfônicas do Brasil. São Paulo, 2014. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Prust, M. T. (2017). Le roi des instruments : a constituição da família do violino da França e seus usos na corte de Luís XIV de 1653 a 1687 (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.
 

SPITZER, John; ZASLAW, Neal. (2004). The birth of the orchestra: history of an institution, 1650-1815. New York: Oxford University Press Inc.
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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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