Logo

Luto: apagaram os graffitis da rua 142

02.07.2014 - 17:11:46
WhatsAppFacebookLinkedInX

Para ler ouvindo:
Johnny Cash | Hurt

DSC02377
 
 (Foto: Raisa Ramos)

Sempre achei Goiânia muito legal por não apagar os graffitis que aparecem por aí. Outras capitais do mundo não têm a mesma sorte e diariamente tiram do mapa obras de artistas importantes do cenário atual. Coisa mais triste não há. Só que na semana passada, fui surpreendida: apagaram os graffitis de trás da minha casa, os graffitis que eu via todos os dias e que melhorava o meu astral, aqueles da Rua 142. Graffitis lindos, assinados por Morbeck, Decy, Wes e Mateus Dutra foram cobertos por uma tinta vermelha e tiveram retângulos brancos delimitados, mostrando que provavelmente o local vai anunciar propagandas.

O graffiti tem duas funções sociais que não podem ser ignoradas pelo poder público e pelos habitantes do meio urbano. Primeiro que ele rompe com os espaços fechados e elitizados dos museus e coloca a arte na rua, no cotidiano de quem quer que passe pela intervenção, independentemente de classe social, gosto, escolaridade. O graffiti consegue o que a arte moderna tentou e não conseguiu: a democratização da arte. Ela está ali para ser vista – e se faz ser vista – por qualquer pessoa, conquistando assim novos públicos, que em uma situação comum, jamais entrariam em um museu por diversas razões (medo de serem excluídos, por exemplo).

A segunda função social é a de resgate de percepções e sensibilidades dos moradores das cidades. A rotina nos cega, nos faz passar várias vezes por um mesmo caminho até que não percebemos mais nenhum detalhe existente. É tudo tão mecânico que nosso olhar fica domesticado. Não reparamos mais as esquinas, as pessoas, as construções, nada. Nosso pensamento está em algum lugar muito distante, longe do espaço físico que nosso corpo ocupa. Mas prestar atenção na cidade é algo que pode ser extremamente prazeroso. A arte de rua consegue despertar nossos sentimentos até então adormecidos. Nossos olhos, tão inertes, acordam para o graffiti recém pintado naquele muro abandonado que faz parte do seu percurso diário. E esse resgate de sensibilidades é importante para a qualidade de vida de quem se propõe a viver no caos urbano.

Diante de tudo isso, se realmente o lugar que apagou os graffitis da rua 142 o fez exclusivamente para ter espaço para vender propagandas, a cidade simplesmente perdeu um lugar de exposição gratuita de arte e ganhou mais poluição visual (tudo o que menos precisamos no momento). Que benefício há nisso para a cidade? Nenhum. Espero que mais e mais pessoas consigam enxergar a tristeza que é perder um acervo público tão importante assim. Vou sentir falta dos desenhos que faziam parte da minha rotina (inclusive, a foto da minha coluna foi tirada em frente a eles). Tomara que os artistas compensem logo essa falta com mais arte espalhada pela cidade.

DSC01475

DSC01482

DSC02380
  (Fotos: Raisa Ramos)

Leia este e outros textos sobre cidades, viagens, receitinhas e beleza também no blog Algum Lugar Etc.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Raisa Ramos

*Raisa Ramos é jornalista, autora do blog Algum Lugar Etc., apaixonada por cidades, viagens e fotografia

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]