Logo

Malhados, cuspidos e apedrejados

08.10.2013 - 11:37:32
WhatsAppFacebookLinkedInX
Goiânia – Não há que se estranhar se pessoas publicarem nas redes sociais, se que é que já não o fazem, fotos de seus próprios excrementos ou dos dejetos alheios. Já tem ocorrido mais ou menos isso: publicam-se imagens de horror e mau gosto extremo, escreve-se tudo o que acorre à boca; expõem-se percepções, pensamentos, julgamentos que não têm dignidade ou merecimento para serem ditos, menos ainda escritos.  Mas quem sou eu para apregoar o que se deve compartilhar, falar ou escrever? Nunca estivemos tão livres e isso é bom.
 
Com a tecnologia, a comunicação se tornou mais dinâmica, democrática e acessível. Haverá limites? Cada um estabelece suas próprias porteiras, eloquências, verborragias, pudores, bom senso, silêncios, com base no seu discernimento, na educação, no sentido mais amplo de formação humanística, que tem ou não. Há, claro, a lei que põe freios nos direitos e liberdades individuais, precisamente naquele que ponto o exercício deles esbarra nos direitos e liberdades do outro. Mas até mesmo a lei parece vaga nesse novo universo sem regras aparentes em que se navega, de ainda pouco divulgadas e conhecidas jurisprudências.
 
O episódio recente da goiana que teve imagens íntimas divulgadas pelo ex-namorado faz mais uma vez refletir sobre esse imenso oceano da comunicação nas suas múltiplas plataformas, nesses mares em que navegamos ainda perdidos, sem bússolas, ao sabor dos ventos, agarrando-nos ora a uma promessa de ilhas paradisíacas, ora a cantos de sereia, às vezes assustados por quimeras, outras vezes mareados com tanta beleza e merda que flutuam misturadamente. Temos, porém, que eleger algum roteiro, mapa ou guia, ou será que admitimos ser simplesmente arrastados pela irracionalidade das correntes?
 
A moça que protagonizou essa triste história de superexposição e humilhação não foi apenas a primeira, nem será a última. Possivelmente sua história vai parar nos tribunais, é possível que resulte em indenização. A mim, o que me impressionou foi, de um lado, a atitude dos que se colocaram na condição de juízes, de autoridades inquisitoriais, condenando moralmente, culpando a vítima por inconsequência, atirando pedra na Geni, tão boa de cuspir; por outro, o comportamento daqueles que, displicentes com a responsabilidade que têm, como figuras públicas, célebres, formadores de opinião, se divertiram e escracharam da dor alheia, transformando em piada, em gesto sarcástico, um elemento dessa história grotesca.
 
É fato que a internet, terra ou águas de ninguém, é o campo livre para a maledicência, para a disseminação dos preconceitos, para o extravasamento das emoções raivosas, para o escracho, o deboche, para o apedrejamento e a malhação. E nessa sociedade de vigilância, em que as câmeras digitais, os celulares, os tablets se constituem em milhões de olhos e ouvidos que nos espreitam, em que nós mesmos, assumidamente narcisistas e exibicionistas, nos expomos, qualquer um de nós, qualquer um, indiscriminadamente, está sujeito a se tornar de repente a Madalena apedrejada, o Judas malhado.

Qualquer deslize nosso, qualquer imprudência ou inconsequência, ato praticado na esperança de ser privado podem repentinamente ser publicizados, tornando-se objeto de zombaria, de julgamento. Podemos a qualquer momento ser julgados e condenados por milhares de desconhecidos, investidos de uma arbitraria autoridade.
 

Será isso o que queremos? Seremos coniventes com isso, até que chegue a nossa vez de receber um cuspe, uma pedrada no meio da testa, de sermos escarnecidos e aviltados em praça pública? O que pretendemos fazer dessa imensa liberdade de que desfrutamos? Quem está no mar é para navegar, mas não estará nas nossas mãos tornar essas águas menos sujas, ricas e diversas sim, de experiências e opiniões variadas,  turbulentas, mas ainda assim bonitas e transparentes?

Podemos começar por usufruir também do nosso direito de ficar em silêncio algumas vezes, de não gritar ao mundo todas as bobagens que tantas vezes nos acodem aos dedos e à boca, de não zombar e não julgar precipitadamente, de não compartilhar a humilhação e a violência, de não "viralizá-las". Comecemos assim, afinal, ninguém está a salvo da tempestade midiática. Num mar de merda, cada um se afoga ao seu tempo, mas, ao fim e ao cabo, afogam-se todos igualmente. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]