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Manifesto pelo mistério

03.10.2023 - 09:40:30
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O bom texto não entrega seu sentido. Estende a mão e confia na inteligência do leitor para construi-lo. Ele abre um espaço comum entre seus signos e quem os decifra para que ali se estabeleça a possibilidade do sentido. Criada a ponte, o texto é afetado pela particularidade do leitor e deixa de pertencer apenas a quem o escreveu. Quem lê, de seu lado, incorpora as palavras, tudo o que elas carregam e nunca mais será o mesmo.
 
Entre os muitos legados que meu pai me deixou, há um texto – um texto que não é dele, mas do psicanalista Hélio Pellegrino, e que, de certa forma, meu pai também recebeu de seu pai. 
 
Contava ele que, bem jovem, entrando em uma livraria no centro de São Paulo, se deparara com o recém-lançado "O Encontro Marcado", romance que consagrou o escritor Fernando Sabino. Pediu então que meu avô o comprasse e, abrindo o livro, foi para sempre impactado por sua epígrafe, que é um trecho de uma carta de Hélio a Fernando, amigos desde a infância e por toda a vida:
 
"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mão vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome."
 
Da pretensão infantil e narcísica, fadada ao fracasso, de moldar o mundo à nossa imagem e semelhança, é preciso, para termos esperança de salvação, descobrir o mundo inútil – não a salvação da alma, claro, mas a redenção possível de, entendendo-nos como destinados a buscar o outro sem nunca encontrá-lo, quem sabe, por acidente, esbarrarmos com a paz de espírito possível.
 
O outro e o mundo, que a ele pertence, são mistério. É preciso fazer as pazes com o mistério. Já não é preciso devassá-lo, posto que está além da razão. Ao contrário, é necessário cultivá-lo, admirá-lo, fazer do mistério a cama macia e aconchegante em que toda noite nos deitamos. Deixar-se abraçar e, abandonando toda a tensão e o medo, abrir os olhos e admirá-lo em sua infinita beleza.
 
É preciso recuperar o espírito do biólogo Edward Wilson, que dizia, encantado com a Amazônia e referindo-se à própria empreitada científica que o movia:  "Esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. Rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial".
 
Razão e mistério de mãos dadas. Sonho imemorial.
 
Não à toa seguimos em nossa sanha destruidora da Amazônia e de tudo aquilo que identificamos como "natural". É preciso domesticar, moldar o mundo à nossa imagem e semelhança – como é preciso, no limite, converter o outro ou então eliminá-lo fisicamente: o indígena, o preto, o gay, o trans, a filha de santo, a mulher – encarnações do mistério.
 
Impressiona, nesse sentido, a sabedoria dos founding fathers, inventores da democracia, pois a democracia, o menos pior dos sistemas políticos, aceita a necessária humildade diante do insolúvel mistério do outro e nela deita suas raízes. Por isso, preocupa-se em salvaguardar os direitos das minorias e do indivíduo, diante do risco de que o poder da maioria se converta em desejo de eliminação das diferenças – o que, cedo ou tarde, sempre acontece. Democracia é trabalho perene e incansável de construção. Ela é sempre uma tentativa – ruidosa, espera-se, de aceitarmos o mistério do outro.
 
Hélio foi um democrata na alma, que faz falta ao Brasil nesse momento de extremismo, incompreensão e intolerância. A grandeza de seu texto reside em permanecer, ele mesmo, sempre em parte oculto, misterioso. Intuímos que há mais nele do que deciframos. Saímos, a cada releitura, com novos sentidos, mas também com múltiplas interrogações.
 
O mundo desencantado se apequena. O mistério nos engrandece.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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