Goiânia – A política não funciona como nos ensinaram os livros infantis. Não é um embate do bonzinho contra o vilão. Essas figuras simplesmente não existem no mundo das negociações políticas. E o herói não salva a bela mocinha no final da trama. A coisa é muito mais complexa que isso por lidarmos com algo que não paramos muito para pensar, a vida real.
Ninguém é 100% bom, honesto e defensor das virtudes quando estamos no mundo de carne e osso. Até porque tratamos, como eu já disse, da vida real. E a percepção do que são as virtudes pode variar conforme a formação de cada um. O embate é cheio de nuances, detalhes e resultados imprevisíveis. Por isso vemos, de um tempo para cá, o medo do golpe surgir na sociedade brasileira.
Até mesmo aqueles que participaram e se encantaram com o povo nas ruas, meio que colocaram as barbas de molho. Será que a pauta legítima de reivindicação por melhorias, será que a tentativa de colocar contra a parede os poderes constituídos, será que o vigor das ruas terá um resultado completamente desastroso? Como aprendi com Ringo Starr, tomorrow never knows.
Se fosse para dar um chute, eu digo que não acredito na hipótese. Penso que como o avanço social e a estabilização da economia no Brasil vieram no regime democrático, o espaço para um golpe que instituísse a volta de um governo autoritário é muito reduzido. A revolta da rua não é contra a democracia, é contra o modus operandi que permeia nosso processo político. A eterna lógica da acomodação do que não é possível acomodar. O velhaco hábito do jeitinho. Contudo, não é porque a chance é reduzida que ela é inexistente.
O que você faria se a presidenta fosse deposta, o Congresso dissolvido e o Judiciário enquadrado? Esperaria pela acomodação das forças para ver como a situação ficaria? Pegaria aquela cidadania de outro país que você tem e se mudaria de mala e cuia? Entraria para os grupos de resistência armada? Pediria asilo em algum país sul-americano? Tentaria uma composição política com o novo poder? O que você faria?
Nesses momentos de aumento da tensão social, nenhuma hipótese pode ser considerada esdrúxula ou fantasiosa. A análise não pode ser nem incrédula e nem histérica. No máximo, a prudência nos recomenda considerá-la como menos ou pouco provável.
Mas, voltando o assunto, o que você faria se tivéssemos um golpe hoje?