Mônica Parreira
Goiânia – Estádio Serra Dourada. Incontáveis são as sensações que o nome causa às pessoas que, por um motivo ou outro, frequentam ou já frequentaram o local. O grito de alívio pelo gol nos acréscimos, as lágrimas de aflição por uma derrota. A fé que move multidões, independente da religião. E ainda a nostalgia de ouvir, ao vivo, um grande ídolo cantar aquela música que marcou gerações.
Serra Dourada é emoção. É marcante, inesquecível, especial. Nesta segunda-feira (9/3), o templo maior do futebol goiano completa 45 anos. No lugar de festa, portas fechadas para uma revitalização. Tudo para que o “senhor de meia-idade” consiga se adaptar aos tempos modernos. E na impossibilidade de celebrar o aniversário com o que o estádio faz melhor, que são espetáculos, só resta relembrar os momentos que fizeram história.
Quatro linhas
No futebol, nada mais especial do que os relatos de Lincoln, o “Leão da Serra”. Em 9 de março de 1975, o então atleta participou do jogo inaugural do Serra Dourada. Em campo, Seleção Goiana 2 x 1 Seleção de Portugal. O time visitante abriu o placar com Octávio. Mas coube a Lincoln a honra de ser o primeiro brasileiro a balançar as redes do novo estádio. Balançou também as arquibancadas, com público de 76.718 pagantes. “Marco importantíssimo na minha vida”, lembrou sobre o seu gol de empate. Tuíra marcou o tento da virada goiana sobre a equipe europeia.
Lincoln foi o primeiro brasileiro a marcar gol no Serra Dourada (Foto: reprodução/Twitter)
A memória de Lincoln não falha: um chute de canhota, no canto esquerdo do goleiro, foi a medida certa para escrever seu nome na história da praça esportiva. São lembranças tão presentes quanto o reconhecimento de torcedores. “Até hoje quando vou ao Serra Dourada, 45 anos depois, as pessoas me reconhecem, conversam comigo e pedem para fazer selfie. É motivo de júbilo ser alvo de tantas manifestações carinhosas”, disse.
Lincoln não está sozinho nesses registros de glórias. Ao longo de quatro décadas e meia, vários ídolos do futebol desfilaram pelos gramados do estádio goiano. Entre a geração de Pelé e Neymar, estão nomes como Maradona, Zico, Sócrates, Rivelino, Van Persie e Robben. Nas arquibancadas, um público sempre presente para acompanhar desde jogos locais até grandes decisões, como da Copa do Brasil e da Sul-Americana. E ainda, partidas da Copa América de 1989.
Cada um vê o Serra Dourada sob sua própria perspectiva. Para a seleção brasileira, o estádio é uma espécie de amuleto da sorte, quase um santuário: 12 vitórias, dois empates e nenhuma derrota. Já o lendário Túlio Maravilha enxerga aquele gramado como o terreno mais fértil de sua carreira. Os 131 gols marcados ali fizeram dele o maior artilheiro do estádio. Até Maradona tem lá suas intimidades, pois foi em solo goiano que o argentino mais jogou no Brasil – quatro partidas.
Música e fé
Nem só de futebol se faz a história do Serra Dourada. Quando o nome do estádio vem à mente, quem não é adepto ao esporte certamente se lembra com carinho do local por outros motivos. É o caso, por exemplo, de milhares de católicos. Em 1991, a visita do papa João Paulo II a Goiânia ultrapassou a capacidade de público do Serra Dourada. Na ocasião, a bênção do pontífice foi dada aos fiéis do lado de fora, no estacionamento do estádio, onde uma multidão se aglomerou naquele dia 15 de outubro:
Visita de Papa João Paulo II atraiu milhares de fiéis no estacionamento do Serra Dourada (Vídeo: YouTube/Jornal do Meio Dia)
Em ocasiões mais recentes, o Serra Dourada recebeu outros eventos religiosos, como as edições 2013, 2014 e 2015 da Conferência Radicais Livres. O evento gospel, que chama a atenção pela extensa programação de virar a noite, atraiu milhares de pessoas, com destaque para o público jovem.
A música esteve presente em contextos variados. É o caso, por exemplo, do show Tributo a Leandro, em 2003. A apresentação homenageou o cantor que fazia dupla com Leonardo e que morreu por causa de um câncer. E por falar em sertanejo, nos últimos anos o festival Villa Mix atraiu multidões para uma série de apresentações no estacionamento do Serra Dourada.
Em 2013, uma atração internacional. Paul McCartney encantou mais de 40 mil pessoas durante apresentação dentro do Serra Dourada. O show repercutiu no mundo inteiro depois que uma “chuva de gafanhotos” invadiu o palco. Enquanto o músico tocava piano, batizou um dos insetos que pousou no seu braço de Harold e chegou a conversar com ele, arrancando risos da plateia:
Show de Paul McCartney, em 2013 (Vídeo: YouTube/ PAUL McCARTNEY)
Planos para o futuro
Dias atrás, o ex-jogador Lincoln visitou o Serra Dourada para gravar entrevistas especiais alusivas ao aniversário do estádio. “Tristeza danada”, confessou ao ver o espaço fechado. Sua última atração foi no dia 8 de dezembro do ano passado, quando o Goiás venceu o Grêmio por 3 a 2, pelo Brasileirão da Série A. “Fico torcendo para que público volte a frequentar e veja bons jogos. Na minha época o Serra representou um avanço para o futebol goiano. Que continue assim.”
A data de reabertura ainda é incerta. Em entrevista ao jornal A Redação, o secretário de Esporte e Lazer, Rafael Rahif, fez a previsão de que a praça esportiva deve ficar pronta em junho, mas que tudo dependerá dos trâmites burocráticos. “Estamos com um processo licitatório para trocar a iluminação. Também queremos reformar os banheiros e refazer a pintura”, explicou.
Sistema de iluminação será trocado (Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
A intervenção na luminosidade da praça esportiva será necessária para atender a uma determinação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A partir deste ano, só estão aptos a receber jogos do campeonato nacional os estádios que possuem iluminação de 1600 lux – o Serra Dourada tem somente 800 lux. Essa obra, que afeta toda a rede elétrica, deve custar cerca de R$ 3 milhões. Além disso, o gramado do estádio passa por uma revitalização, o que, segundo Rahif, não era realizado há pelo menos dois anos e meio.

O secretário reconheceu que as intervenções em andamento são apenas pontuais, e que muito há de ser feito até que o Serra Dourada esteja, de fato, à altura dos melhores estádios espalhados pelo País. “É meu sonho e do governador [Ronaldo Caiado] transformar o Serra Dourada numa arena completa. Moderna, confortável, agradável, bonita. Queremos que o torcedor visite e sinta vontade de voltar”, projetou, já pensando em como gostaria que ele estivesse para a celebração do cinquentenário.
Segundo Rahif, o projeto de modernização é de médio prazo e deve começar a ser executado ao longo da atual gestão. Além de reformar banheiros e lanchonetes, a expectativa também é melhorar a capacidade de público do estádio, que já chegou a receber quase 78 mil pessoas. “Estamos desenvolvendo um estudo para aproveitar o espaço da geral. Queremos chegar perto da capacidade que ele tinha, respeitando os critérios de segurança”, projetou. “O Serra Dourada é um símbolo para Goiás e estava abandonado. Estamos lutando para recuperá-lo”, finalizou.