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Menos é mais?

14.01.2013 - 11:28:45
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Goiânia – “Como é triste o nu que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O biquini vai comprar grapete e o crioulo da carrocinha tem o maior tédio visual pela plástica nada misteriosa. E aí começa a expiação da nudez sem amor: a inconsolável solidão da mulher.”
 
A observação acima foi feita em 1968, pelo escritor e jornalista Nelson Rodrigues, mas cai como uma luva para os dias atuais. Tédio visual parece ser o sentimento de vários homens que saem às ruas, tamanha a oferta de seios, pernas, colos, coxas e otras cositas femininas mais à vista.
 
“Da última vez que fui à boate, por incrível que pareça, a mulher que chamou minha atenção foi aquela que estava usando um vestido discreto, básico. Tive a impressão de que ela estava ali para se divertir, curtir com as amigas, e não dar uma de predadora na balada”, desabafa o amigo recém-divorciado.
 
Outro amigo que terminou um namoro longo também faz coro aos descontentes. “É tanto peito e bunda de fora que você se cansa só de olhar. Esse look piriguete, essa vontade de sensualizar a qualquer custo, acaba tendo o efeito contrário e tira o tesão. Deixa de ser novidade e vira uma coisa banal, até vulgar.”
 
Mas a insatisfação não é apenas da ala masculina. Muitas mulheres também estão cansadas do “piriguete way of life”. A mãe de uma amiga, por exemplo, se revoltou com as companheiras de balada. Com 56 anos, ela acha o fim ter de fazer lipo para poder usar short e deixar as pernas de fora.
 
“Agora existe a ditadura do short. Todas as minhas amigas querem usar isso para sair. Entram na faca e contratam personal caríssimo, só para ficar com as pernas malhadas e se vestirem como as meninas de 20 anos. Eu me recuso a pagar esse mico. Se não puder vestir o que quero com 56 anos, farei isso quando?”, queixa-se ela. 
 
Percebo que não se trata de moralismo, de um discurso conservador, mas de um real cansaço em relação a essa necessidade de as mulheres terem de exibir o corpo o tempo todo, como se mostrá-lo fosse um capital, uma moeda de troca por admiração, afeto, aceitação. 
 
Vejo as mulheres dizendo que usam roupas curtíssimas e decotadérrimas para “sensualizar”. Mas não sensualizam nada, porque ser sensual é sugerir, seduzir com sutileza, e sutil é tudo o que a tal “piriguete fashion” não é. Me parece mais uma tentativa ostensiva, desesperada mesmo, de chamar a atenção pela falta de pano.
 
No verão a coisa piora. Para onde se olha, o que se vê é um bando de mulheres com (bem) pouca roupa, dispostas a tudo para mostrar seus atributos físicos. Não surpreende que haja tantos homens sofrendo de tédio visual. A oferta é grande demais para causar algum espanto ou impacto. 
 
Vivemos num país extremamente quente, que apenas por seus fatores climáticos já nos estimula a usar roupas leves. Além disso, a mulher brasileira é conhecida em todo o mundo por sua beleza e exuberância. Nada contra mostrar isso. O problema é querer mostrar apenas isso, como se não tivéssemos nada mais a oferecer.
 
Dizem que menos é mais. Quando o que está em pauta é o tamanho da roupa feminina, tenho cá minhas dúvidas. Fico me perguntando até que ponto as peças menores são realmente uma prova de mais sensualidade, mais autoestima, mais liberdade, mais alegria. 
 
Se o estilo da roupa refletir o estado de espírito da mulher, o fato de ela se sentir realmente bonita e desejável e querer externar isso ao mundo, acho que decotes, fendas e minis são mais que bem-vindos. Mas se o visual matador for somente um recurso fake e desesperado para se fazer notar, aí não vale a pena. Nesse caso, o menos é menos. Bem menos.   
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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