Logo

Meu Araguaia

23.07.2024 - 09:29:16
WhatsAppFacebookLinkedInX
Invariavelmente, com o mês de julho em Goiás, vem a pergunta: você não vai pro Araguaia?
 
O goiano tem uma relação de profundo afeto e conexão com esse rio. O Araguaia conversa com nossa alma mais que o Paranaíba ou o Tocantins, outros importantes cursos d'água que também nascem no território do estado. Estudiosos da cultura saberão explicar melhor as causas dessa preferência, que certamente têm a ver com a beleza natural do rio de praias brancas e águas esverdeadas e também com sua piscosidade, mas que, suspeito, enraizam-se, de forma mais profunda, na geografia do território e na forma como ajudou a moldar certa ideia de goianidade.
 
Julho, além das férias escolares, é ápice da estiagem, mês das águas baixas e mais límpidas e das noites frias, apesar dos dias quentes. O trecho do rio situado logo acima e abaixo da cidade de Aruanã, ponto mais próximo de acesso ao rio, tanto da antiga capital, Goiás, como da atual, é o mais procurado e celebrado. 
 
A experiência de fato do Araguaia, para o goiano, reside em acampar. É uma tradição herdada dos velhos pescadores que, nessa época, mudavam-se, durante um mês ou mais, para o rio, onde erguiam um rancho que passava a servir de base para as saídas de pesca. 
 
Embora o acampamento moderno não seja só pesca e tenha se sofisticado em estrutura, o espírito permanece. Durante o mês de julho, famílias e grupos de amigos fazem esse movimento migratório rumo ao grande rio, que mantém sua majestade apesar dos desmatamentos o entupirem cada vez mais de sedimentos e da pesca predatória ter diminuído em muito seus cardumes.
 
Desse passado, recordo-me bem das visitas aos meus pais do velho Carmo Bernardes e da Dona Maria, sua mulher. A cada agosto, regressavam tostados de sol, cheios de histórias e com o caminhão carregado de peixes e outras iguarias, como os ovos de tracajás – o quelônio típico do Araguaia -, numa época em que a lei não proibia essa maldade.
 
Eu cresci, entretanto, com outra experiência do Araguaia, não menos afetiva e igualmente formadora de minha personalidade. Ela remete, não obstante, a uma porção menos conhecida do rio. Desde nossa mudança para Goiás, em 1982, passamos a frequentar a Fazenda do Encantado, do saudoso jornalista Batista Custódio que, como Carmo Bernardes, de sua origem rural, trazia um tipo diferente e profundo de relação com a natureza. 
 
Segundo seus relatos, comprara a fazenda aos pedaços, a partir de um primeiro anúncio em jornal, em que dizia buscar uma cachoeira para comprar. Adquiriu-a no município de Baliza, a 420 quilômetros de Goiânia, onde o Araguaia, ainda em seu alto curso, corre estreito e agitado no interior de um cânion. A tal queda d'água não pertence ao Araguaia, e sim a um pequeno córrego de rara beleza que o jornalista e sua então esposa Consuelo Nasser batizaram com o sugestivo nome de "Encantado". 
 
O Encantado deságua no Araguaia de forma única, entrando embaixo das rochas para atravessar a parede do cânion. Antes de fazê-lo, entretanto, abre-se em uma última cachoeira e num improvável poço cristalino com uma praia da areia mais branca.
 
Ao longo dos anos, Batista foi comprando outras porções de terra até que o Encantado se tornasse integralmente propriedade sua. Ao lado dessa primeira cachoeira, construiu um imenso rancho de pau a pique e chão de areia, para onde se mudava no mês de julho com a família e onde recebia os amigos.
 
Como diz Riobaldo, no Grande Sertão: Veredas, referindo-se às belezas do seu mundo: "Quando o senhor sonhar, sonhe com aquilo". As águas do Encantado são verde-esmeralda e correm sobre pedra e areia serpenteando em meio ao cerrado e às veredas numa sucessão inacreditável de poços, corredeiras e quedas d'água.
 
O Araguaia ali, espremido, ruge incessantemente entre as paredes de pedra. Lembro-me de nos deitarmos sob a imensa Lua cheia para ouvir o barulho dos enormes dourados e cachorras saltando em sua luta contra as corredeiras.
 
No rancho, quando o sol se punha e a noite caía, vinha a luz amarelada dos lampiões, o som dos grilos e o coaxar dos sapos, o ruído hipnotizante do Araguaia sempre ao fundo, enquanto o rádio tocava "Riacho do Navio", a canção de Luiz Gonzaga que fala do retorno a um pedaço de terra querido. 
 
Havia o medo da noite, dos ruídos dos pássaros, do pio agudo da coruja e da escuridão da mata num lugar então ainda bastante remoto dos sertões brasileiros. Mesmo assim, me sentia aconchegado e logo o cansaço do dia inteiro em brincadeiras no rio e no mato tomava conta do corpo e eu adormecia.
 
A memória é feita de metamorfoses enganosas, e eu já não sei se o que sinto hoje são as mesmas emoções originais de menino ou sua transmutação em outra lembrança remoldada pelas experiências que se superpuseram. A lembrança não invoca pavor ou angústia, mas sim uma espécie de temor reverente diante da natureza desconhecida e do mistério que foi, de certa forma, a base do que depois me levou a aventuras em montanhas geladas, cavernas escuras e outras paisagens distantes. De algum modo, nos Andes ou nas Rochosas do Canadá, no Vale do Ribeira ou no Pico da Neblina, é como se eu buscasse a mesma sensação daquelas noites distantes dos anos 1980 – uma sensação de estar ao mesmo tempo em casa e num lugar estranho.
 
_____
 
P.S: Em 2011, lancei Cartas do Kuluene, um longa-metragem a meio caminho entre documentário e ficção, em que usei alguns dos cenários da Fazenda do Encantado como locações. O filme está disponível aqui
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]