Logo de manhã, dei uma olhada no meu Instagram e vi uma foto do @reizaogyn (Rodrigo Ramos) que polemizava na rede social mais hipster do mundo. O Reizão tem o hábito de presentear seus seguidores com fotos maravilhosas das delícias do café e de péssimo gosto de seu amor gambá pelo Corinthians. Ninguém é perfeito. Hoje, ele fotografou alguns posts do Twitter de Miguel Tiago (@MiguelTiagoPT), recém-divulgado como superintendente do Procon Goiânia, suplente de vereador pelo Partido dos Trabalhadores e ex-presidente da AMT. Na ocasião, Miguel Tiago relacionava tatuagens e bandidos.
Veja o que ele disse: “Tatuagem e bandidagem estão associados. Pode haver exceção. Mas é EXCEÇÃO!!!!”; “Fui amarrado, enquanto ‘limpavam minha casa’, não pude ver o rosto dos bandidos, mas visualizei bem suas TATUAGENS. Há ligação!!!”; “A pedido da polícia fui verificar todas as fotos dos possíveis suspeitos na DEIC. Pasmem: 90% deles com tatuagem. Conclua vc mesmo!!!”.
Segundo dados do Sindicato dos Tatuadores de São Paulo (Setap-SP), 25 milhões de brasileiros têm tatuagem ou piercing. O último Censo realizado no Peru indicou que nosso vizinho tem 28,5 milhões de habitantes. Nós, os tatuados tupiniquins, somos uma nação. E de maioria potencialmente bandida, segundo Miguel Tiago.
Dados do Departamento Penitenciário Nacional mostram que 47% de todos presos do Brasil são da etnia negra. Será que Miguel Tiago vê relação entre afrodescendentes e criminalidade? De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a renda de um homem brasileiro é de US$ 14,6 mil por ano e de uma mulher, US$ 8,8 mil. A taxa de desemprego entre as mulheres é de 11%. A de homens, 6%.De toda imensidão de terras desse Brasil sem porteira, apenas 0,5% estão em nome de mulheres. Será que Miguel Tiago vê relação entre incompetência/preguiça e o sexo feminino?
Segundo a Unaids (órgão das Nações Unidas para o combate à aids), 70% das mortes pelo HIV ocorreram entre gays no continente americano. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, homossexuais masculinos têm até 30 vezes mais riscos de contrair o vírus da aids. Será que Miguel Tiago vê relação entre homossexualidade e a proliferação do HIV?
Como já disse anteriormente, sou do time dos tatuados. E, típico do meu feitio, não é coisa discreta. Meus dois braços são repletos de desenhos coloridos. De Simpsons a Rolling Stones, de caveira a Scooby-Doo, de Calvin e Haroldo a Beatles. Tem de tudo. No meu círculo social, a maioria é de tatuados. Desde discretas florzinhas atrás da orelha a corpos inteiros fechados. Não acho que eu conviva no meio de bandidos potenciais. Para falar a verdade, creio que Miguel Tiago topa com mais bandidos nos bastidores da política do que eu entre tatuados.
Os que cometeram a violência indescritível do assalto à residência do superintendente do Procon eram tatuados. Ponto. Qualquer tentativa de compor cenário a partir daí é mera ilação de cunho preconceituoso. Generalização calcada naquilo de pior que vive em nosso âmago. Se fossem negros, gays, mulheres, torcedores do Goiás ou moradores de, digamos, Mozarlândia (GO), tenho certeza que ele não viria às redes sociais falar que 90% dos ladrões são negros ou gays ou mulheres ou torcedores do Goiás ou moradores de Mozarlândia.
Já me encontrei com Miguel Tiago algumas vezes. Em solenidades, em reuniões, em entrevistas na Interativa FM. Ele sempre esbanjou simpatia e cordialidade no trato. E, naturalmente, viu minhas tatuagens. Não percebi mudança no relacionamento comigo por causa da pele desenhada. Não acredito que ele pense aquilo de verdade. Foi só uma reação exagerada após o absurdo abominável que enfrentou. De cabeça fria, creio que não diria tal bobagem. Mas não posso deixar de dar meu puxão de orelha.
Sou orgulhosamente tatuado e não sou bandido.