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Mistérios da Amazônia

10.09.2024 - 12:00:56
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A Amazônia é esse estranho lugar que está no centro do debate político brasileiro e que, no entanto, é desconhecido da maioria de nós brasileiros. Suas dimensões continentais confundem o cérebro. É significativo, por exemplo, dar-se conta de que a distância entre Manaus e Belém é praticamente a mesma que aquela entre uma dessas cidades e Brasília. A Amazônia é maior que a Índia ou que a Europa Ocidental. O tamanho de seus rios subverte as escalas a que estamos acostumados e bagunça nossas referências cognitivas.
 
Talvez o que seja mais urgente superar é a ideia de imensidão verde homogênea. A Amazônia é enormemente diversa, em sociedades, ecossistemas e paisagens. São 38 milhões de pessoas que incluem 440 mil indígenas distribuídos em aproximadamente 180 povos, incluindo vários grupos isolados. Há florestas de terra firme, florestas alagáveis, savanas, manguezais. Há montanhas e há planícies. E há, sobretudo, água. Os povos amazônicos são gente tanto da floresta quanto das águas.
 
Tive a sorte de poder conhecer o Pico da Neblina, que é um lugar que concentra, de certa forma, toda essa diversidade e complexidade da Amazônia.
 
Por seu caráter remoto e acesso difícil, o Neblina traz uma sensação de viagem no tempo rumo a um planeta Terra ainda habitado por seres míticos. 
 
Saindo de Manaus, é preciso voar – ou chegar de barco – a São Gabriel da Cachoeira, mil quilômetros Rio Negro acima. O fato de que, ao longo desses mil quilômetros, o Negro desça apenas cerca de um metro evidencia o fato de que essa região, antes do soerguimento dos Andes, durante o período Cretáceo, há 100 milhões de anos, era um grande mar interior.
 
São Gabriel é o terceiro maior município brasileiro em extensão territorial. Com 109 mil quilômetros quadrados, é maior que países como Portugal ou Áustria. Conhecido como o município mais indígena do Brasil, tem mais de 90% de sua população formada por pessoas de 23 etnias, como os Baniwa, os Tukano e os Yanomami, entre outros.
 
Dali, são aproximadamente 80 quilômetros de atoleiros pela BR-307 até o Iá-Mirim, vilarejo à beira do rio de mesmo nome, que será preciso descer de barco para então subir o Cauaburis e chegar ao Igarapé Tucano, de onde se inicia a caminhada. São cerca de 10 horas de voadeira pelas águas escuras desses tributários do Negro já dentro da Terra Indígena Yanomami e do Parque Nacional do Pico da Neblina, que se sobrepõem. Aos poucos, no horizonte, revela-se a silhueta da Serra do Imeri, o imenso maciço montanhoso de que se ergue o ponto culminante do Brasil.
 
A ascensão se inicia a cerca de 200 metros acima do nível do mar e o pico da montanha está a 2.995 metros. São, portanto, impressionantes 2.795 metros de desnível a serem vencidos, quase a mesma diferença de altitude para quem escala o Aconcágua, montanha mais alta das Américas, que tem 6.991 metros e cujo campo-base situa-se a 4.200. Claro que, no Neblina, bem mais baixo em termos absolutos, não há o fator altitude para prejudicar o desempenho físico. Ainda assim, é uma dura escalada com dificuldades muito diversas.
 
A jornada é, em primeiro lugar, uma oportunidade para entrar em contato com o lado humano da Amazônia, em sua história e diversidade. Percorrer a BR-307, por exemplo, permite entender melhor o tamanho dos delírios da Ditadura Militar, que abriu essa estrada nos anos 1970. "Terra sem homens para homens sem terra", dizia o slogan do Plano de Integração Nacional, que por meio de investimentos em infraestrutura na região procurou atrair migrantes para colonizarem a Amazônia.
 
A região do Pico da Neblina situa-se, como dito, em território Yanomami. A Serra do Imeri é espaço sagrado desse povo, morada de espíritos e forças da natureza. Mas é também faixa de tríplice fronteira, convergência dos territórios brasileiros, venezuelano e colombiano e, por isso, área bastante militarizada. 
 
O que mais impressiona é a mudança gradual da paisagem e do clima à medida que se sobe. Se os dois primeiros dias são passados em meio à densa floresta amazônica, no terceiro, surgem campos de altitude, com temperaturas amenas, vegetação de montanha e rios encachoeirados e gelados. No topo do maciço da Serra, a que se chega após três dias de caminhada e de onde se ergue a pirâmide que é o Neblina, a vegetação escasseia. Musgos e líquens cobrem os arbustos magros que se agarram ao terreno inclinado e as bromélias onipresentes nos arranham, numa paisagem que lembra bosques das fábulas de Tolkien.
 
Aqui, à noite, já no Hemisfério Norte, mas quase sobre a Linha do Equador, a temperatura chega facilmente próxima a zero e eu me pergunto como sobrevivem os garimpeiros com quem cruzamos e que passam meses sozinhos enfurnados nessa serra em busca de ouro, à mercê do tempo e das onças. 
 
A ascensão final, no quarto dia, é feita sobre a rocha nua. São mais 890 metros de desnível até o cume. Em dia limpo, olhando por sobre a borda do maciço, é impressionante observar o balé das nuvens sobre o manto infindável de Floresta Amazônica que se perde no horizonte centenas de quilômetros adiante. A sensação de estar provavelmente em um dos pontos mais remotos do planeta é muito boa, quase uma libertação.
 
À noite, o vento feroz e a chuva sacodem as paredes finas da barraca e nossos guias, mal agasalhados, reclamam do frio em plena Amazônia. 
 
Na descida, nos atrasamos e acabamos surpreendidos pela noite na floresta entre o chamado Acampamento Base e o Bebedouro Novo, ponto seguinte de pouso. Na escuridão da floresta, mal iluminada pelos fachos de nossas lanternas de cabeça, sobrevêm relâmpagos e trovões e logo desaba uma violenta tempestade equatorial.
 
Pode ser uma experiência assustadora, mas pode também, no espírito certo, tornar-se uma vivência de paz. Encharcados, na chegada ao acampamento, espera-nos o Brizola, velho garimpeiro de quem ouvíramos as histórias na ida. Uma pequena fogueira acesa, deitado em sua rede, ele nos oferece café quente e, ainda sob o rugido da tempestade, mais histórias que juntam índios, onças, ouro e todo o mistério da Amazônia. É bom estar em casa.
 
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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