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Morro da Baleia

20.05.2025 - 08:40:00
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Ela o admirava a certa distância. Ele estava ensimesmado, abraçado aos joelhos, o olhar perdido no vasto campo ondulado pelo vento que apenas uma vereda distante cortava. De lá, os buritis acenavam em seu verde intenso celebrando o frescor da água das nascentes.
 
A luz de denso amarelo do fim do dia batia em cheio no rosto dele e o deixava ainda mais bonito e um pouco selvagem.
 
Havia algo, entretanto, desde o dia anterior, como se um fina parede invisível tivesse se erguido entre os dois ou como se um objeto incômodo tivesse sido colocado no espaço que os separava e ambos soubessem que estava ali, mas nenhum dos dois quisesse ser o primeiro a admiti-lo para o outro.
 
Uma rajada forte deixou o ar ainda mais frio. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Veio-lhe a imagem da avó. Fora costureira. Viera da Galícia aos seis anos de idade, com os pais e cinco irmãos. O que uma experiência radical como essa imprime em alguém?O que resta quando atravessar o oceano é melhor que permanecer em casa? O que significa uma terra natal que não acolhe? Crescer em um lugar que acaba se tornando seu, mas que nunca o é inteiramente? 

Um pedaço da gente sempre fica para trás quando se atravessa uma fronteira.

 
Estoica. A avó fora a pessoa mais estoica que já conhecera. Dura, mas serena, afetuosa, mas conformada. Só a vira chorar uma vez, quando a filha mais velha morrera.
 
As memórias foram interrompidas pela voz dele:
 
-A seca chegou mesmo. Você sente?
 
-Você acha que não vai chover mais?
 
-Não vai – ele fez uma pausa antes de continuar: -Já reparou como chega sutil, devagarzinho? Primeiro, vem um vento manso que começa a mudar a própria textura do ar. Mas a gente percebe mesmo que chegou pra ficar porque a luz muda – ele fez um gesto vago em direção ao sol poente. – Fica mais fria e amarela. Mesmo a gente estando nos trópicos, ela fica mais oblíqua, bate mais de lado, principalmente de manhã cedo e no fim da tarde. As sombras ficam mais longas. A atmosfera fica mais dramática.
 
-Eu gosto do mês de maio – ela seguia admirando os contornos do rosto dele avermelhados pelo sol: a barba tingida pela luz, os lábios grossos, o nariz anguloso, o cabelo bagunçado pelo vento. – São os meses mais bonitos do Cerrado. A vegetação ainda tá verde, os campos ficam ondulados nos lugares altos, faz frio de manhãzinha. Me faz pensar na fazenda dos meus avós.
 
-É a época de subir as montanhas.
 
-Tomar banho de cachoeira.
 
-Orvalho gelado.
 
-Chá de erva cidreira.
 
-Eu gosto dessa época também, mas eu fico estranho.
 
Ela esperou que continuasse a frase – não queria apressá-lo -, mas ele não disse mais nada.
 
Na trilha de volta, viram um veado nas encostas mais baixas que se assustou e fugiu assim que os viu.
 
A brisa, com o sol já escondido atrás do morro, tornou-se mais gelada. Ela subiu o zíper da jaqueta até o queixo e enfiou as mãos nos bolsos. As luzes se acendendo nas casas distantes ofereciam uma promessa de aconchego que era o oposto do que ela sentia naquele momento. Lembrou-se novamente da avó, e teve vontade de estar perto dela. Perguntou-se se a solidão que sentia era parecida com a que a avó experimentara olhando para o azul sem fim do Atlântico da amurada do navio, no caminho da Espanha para o Brasil.
 
De algum sítio longínquo, chegavam os acordes de uma sanfona, que identificou como as notas iniciais de “Boate Azul”. Ela cantarolou baixinho: “Doente de amor, procurei remédio na vida noturna…”
 
-Não sabia que você gostava de música sertaneja – ele disse.
 
-Eu gosto. Gosto bastante.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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