Ontem fui à festa de aniversário de dois amigos queridíssimos. Daqueles que guardamos no fundo do coração, pois não sairão de lá nunca. Pessoas que conheci em diferentes momentos de minha vida e conquistaram espaços nobres, especiais. E ontem fomos comemorar mais um ano de vida de ambos. Ao sair de lá, com a cabeça cheia de chope e colocando as tralhas da caçula no carro, uma epifania mequetrefe de fundo etílico: como eu gosto de estar com quem eu gosto.
Nossas vidas andam corridas demais. Sobram atividades para as mesmas 24 horas de sempre. Qualquer dois cliques lhe colocam frente a realidades que você só iria conhecer por meio da literatura. A real é que vivemos um mundo atual que seria ficção delirante há 30 anos. As opções são fartas. Com esse cardápio inacreditavelmente grande, nos esquecemos do elementar, do arroz com feijão que é a melhor coisa do mundo. Deixamos pouco tempo livre para quem gostamos de verdade.
É tão triste perceber que valorizamos menos que o devido quem realmente é especial para nós. E entendo aqui valorizar como passar um tempo junto.
Gastamos tempo demais com o trabalho que deveria ser só o suficiente para nos mantermos e deixarmos as contas todas em dia, gastamos tempo demais remoendo velhos rancores para que as feridas não cicatrizem, gastamos tempo demais em relações inteiramente superficiais potencializadas pelas redes sociais, gastamos tempo demais pensando no futuro quando seremos felizes nos esquecendo que o amanhã pode não chegar.
Estou em fase de mudança de hábitos. Minha meta agora é desacelerar, pegar as uvas no cacho. Nesse final de semana, abandonei uma rede social. Não vou mais participar daquilo ali com o intuito único de deixar mais tempo para aquilo que realmente vale. Ver mais as pessoas que gosto, ouvir mais música boa, acompanhar melhor o crescimento de minhas filhas.
Por exemplo, eu seria um jornalista bem melhor (o que ainda não seria suficiente para atingir o mínimo recomendável, algo próximo do decente) se lesse somente os livros que comprei e estão pegando poeira na minha estante. Não leio por que não sobra tempo.
Nos dias de hoje, é preciso foco. Tem muita groselha seduzindo para que passemos nossos valiosos minutos em sua companhia. Só com atenção percebemos essa estratégia cabotina da groselha. Por isso precisamos ter olhos de lince naquilo que é de fato importante.
Amigos do coração, prometo que tentarei estar mais presente. Vocês são o que vale a pena estar vivo nesse mundo louco, onde o mato sem cachorro é nossa rotina e os momentos prazerosos compartilhados com vocês, como foi o caso de ontem, são raros.
A luta é para que as ilhas da alegria sejam cada vez maiores presentes em nossa agenda. Vou cair dentro dessa luta. E não é nada solidário o que estou propondo. Na verdade, é altamente egoísta, só encaro porque é para meu próprio bem.