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Não boto fé no amor

10.08.2016 - 14:13:59
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O desejo arde. Pulsa. Quando desejei um outro alguém, uma atração magnética tomou conta dos nossos corpos. Não houve jeito de escapar. E como foi boa essa entrega. Como foi intensa. Minutos que pareciam horas; abraços que se tornaram seguras prisões; beijos que penetraram a alma e precediam a consumação do que era incontrolável. Alternando entre momentos épicos e trágicos, o desejo nunca deixou espaço para o que fosse morno. A vida sobre uma montanha russa, com subidas e descidas loucas e inesperadas.
 
Era como uma vela. Uma vez a chama acesa, brilhava. Quente. Hipnótica. Quanto mais brilhava, mais consumia a vela. E uma vez totalmente derretida, estava acabado. Não havia como reacender o pavio. Por muitas vezes eu quis colocar a vela numa redoma, para que o vento não apagasse a chama e o tempo não derretesse tão rápido a cera. Mas não funciona assim. Passa o tempo inexorável, e o vento, ao menor descuido, apaga a chama. Parecia tão forte, mas na verdade era sutil. Frágil demais. Com prazo de validade inalterável.
 
E foi então que, entre chamas acesas e apagadas, eu me lembrei do amor. Ele não brilhava. Não me hipnotizava. Parecia não ter pressa nem glamour. A chama do amor era discreta, não queimava. Só aquecia. E eu, que estava acostumada com o ardor da fogueira, achei tudo tão sem graça. E dei a ele o nome de rotina. De amizade. De tédio. Até que entendi que não era nada disso. Diferente do desejo, ele se transformava, e era capaz de resistir ao tempo e ao vento. Começava suave, mas podia adquirir força hercúlea.
 
O desejo não precisa de nada além do outro para se realizar. O amor requer esforço, dedicação. Obstinação. Ele não se resolve com uma atração magnética. É fruto de uma decisão consciente de querer ficar. De querer ser. E como dá trabalho. Ele se esconde embaixo de boletos de condomínio, do arroz que queimou, da ida ao supermercado em pleno domingo, da mensagem de WhatsApp que pergunta se ainda vou demorar muito. Das visões de mundo diferentes, das chatices, dos pitis. Uma rotina tão pesada, ao ponto de fazer submergir toda a vontade de lutar por ele.
 
Talvez seja por isso que Chico Buarque disse em “Futuros amantes” que “os escafandristas virão explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos”. É preciso mergulhar nas profundezas do dia a dia para encontrar a razão que fez com a gente quisesse estar naquele mar de previsibilidade. Fiquei pensando se não seria o comodismo de não ter de surfar numa onda gigante, e saber que o vem pela frente é somente uma marolinha. Ou talvez o conformismo de que é melhor ser um tubarão no aquário, que um peixinho no oceano.
 
Nem comodismo nem conformismo. O amor não se afoba e sabe que nada é pra já, porque não é instintivo, mas fruto de uma construção. Uma vez o barco pronto, ele abriga, protege e nos ajuda a atravessar as noites de tormenta e a contemplar os dias ensolarados. Para construir essa embarcação, é necessário ter paciência, tolerância e disposição. Esperar que o amor, assim como o desejo, se resolva por si só, é querer que o barco afunde. Apenas ter fé que tudo vai dar certo e a sucessão dos dias não vai pesar, esperando que basta sentir para durar, é pedir para naufragar.
 
É por isso que eu não boto fé no amor. Ponho cuidado, atenção, esforço para que o tempo e o vento não consumam o que ele tem de bom. Me lembro todos os dias que o frio na espinha que o desejo desperta já me rendeu ótimos momentos, mas que o que busco agora é calma para a alma. E esse aconchego só o amor pode trazer. O amor que enxerga as qualidades, mas que também aceita os defeitos, porque não busca uma idealização ou a solução para uma equação química corporal. Ama um ser real, já que defeitos e qualidades é que compõem a verdadeira essência de alguém. E não há nada mais sublime que ser amado pela nossa essência.
 
Fabrícia Hamu mantém o blog 'Vida de Adulto'
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / fabriciahamu@hotmail.com

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