Goiânia – Eu não fui amiga de Lucas Fortuna. E isso talvez me ajude a escrever esse texto. Porque a morte de alguém com quem não convivi e com quem não tinha alguma relação afetiva me deixou absolutamente chocada e indignada. E meu choque não vem, portanto, porque perdi uma pessoa que gostava muito, que era inteligente, amável, companheira ou qualquer outra qualidade relatada pelas redes sociais por amigos em comum que temos. Minha indignação é saber que ainda precisamos de mártires para que mudanças aconteçam.
O jornalista goiano Lucas Fortuna, de 28 anos, foi assassinado em uma praia de Cabo Santo Agostinho (PE) no último fim de semana. Militante do movimento gay, amigos acreditam que a motivação do assassinato tenha sido homofobia. A morte de Lucas representa muito mais do que a perda de um jovem inteligente e de um futuro brilhante. Representa mais ainda do que homofobia. Lucas foi mártire por ser justamente quem lutou contra o preconceito e por dias melhores a quem tem a coragem de usar saias por aí e assumir sua sexualidade. Ele lutava por si, e por tantos outros, não pelo simples direito de ser gay. Lutava pelo direito de viver. E morreu pelas mãos do seu inimigo: a homofobia.
Esses limites da intolerância devem servir, minimamente, para que se entenda que homofobia não é brincadeira. E o projeto de lei 122, que criminaliza esse preconceito, não é exagero. A morte é simplesmente a ponta de um processo que começa chamando o cara de “veadinho”, quando quer mesmo ofender ou desrespeitar. Passa pelo discurso de que “não tem nada contra gay, mas na minha família é diferente”. Pela votação em figuras políticas que, publicamente, expõe seu preconceito.
Esse processo de intolerância passa pelos textos homofóbicos publicados na revista de maior circulação nacional, como aconteceu recentemente. Passa pelos compartilhamentos de fotos no Facebook de um perfil chamado “orgulho hétero”. Pelas brincadeiras em sala de aula e nas rodinhas do trabalho. Todas essas manifestações representam intolerância e estão no mesmo balaio da morte de Lucas.
Permitir qualquer preconceito é dar margem para agressões e para possibilidade de assassinatos. Acreditar que quem é capaz de matar alguém a facadas, socos ou pauladas são monstros e delinqüentes mentais desconhecidos é diminuir a responsabilidade das intolerâncias cotidianas. De acordo com relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência (SDH-PR), divulgado em agosto deste ano, 62% dos homossexuais que denunciaram agressão à Secretaria conheciam seus agressores: são familiares, vizinhos, colegas.
Tudo começa com essas intolerâncias e a partir delas é possível, sim, um assassinato. Quem nunca ouviu um discurso preconceituoso da boca de um pai amoroso? Ou viu um competente e honesto trabalhador agredir ou xingar um homossexual? A intolerância é capaz de sujar mãos que nunca tocaram sangue e só o respeito pelas diferenças, e nenhum outro atributo, pode evitá-la.
A necessidade da lei que criminaliza a homofobia, na verdade, é algo absolutamente lamentável. É desumano que as pessoas precisem de leis para impedi-las de desrespeitarem alguém por ser diferente delas. Mas a morte de Lucas e os números assustadores de violência contra homossexuais indicam a necessidade da força da justiça para garantia da vida. Mais desejável, no entanto, é que nenhum cidadão chegue ao limite de ter sua intolerância barrada pela lei. O desafio, mais uma vez, cai no colo da educação: formar cidadãos tolerantes. Principalmente quando ainda não tem nenhuma opinião formada.
A morte de alguém com a visibilidade, importância política e militante de Lucas acaba por expressar os dados que passam batidos a cada relatório divulgado. De janeiro a dezembro do ano passado, também de acordo com relatório da SDH-PR, foram reportadas 18,65 violações de direitos humanos de caráter homofóbico por dia, vitimando 4,69 pessoas diariamente. Lembrando que são poucas pessoas que denunciam ou sequer saibam da existência dessa ferramenta de denúncia.
O meu desejo, portanto, é que a morte de Lucas não se limite a estatísticas e que sua luta não seja apenas lembrança. Que os apelos de cada amigo, entidade e movimentos sirvam para alimentar a indignação e necessidade de não tolerar o intolerável. Que a luta de Lucas não tenha sido em vão para que homofobia, em alguns anos, seja apenas uma triste página da história.
Não precisamos mais de mártires
*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).