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Não seríamos índios porque não teríamos competência

28.10.2025 - 08:20:00
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Em um excelente artigo na semana passada, Luiz Felipe Pondé discorreu sobre sua “disposição anarquista”, que o leva a pressentir que “toda forma de poder deve ser objeto de desconfiança”. Ao mesmo tempo, ele considera equivocadas as duas formas de anarquismo conhecidas — a socialista e a anarcocapitalista — e, por isso, se afirma como um “anarquista sem pátria”.
 
Meu pai, o falecido jornalista Washington Novaes, era também um homem de disposição anarquista. Via com desconfiança toda forma de poder e, por consequência, toda a política, fosse de esquerda ou de direita. Todavia, se estivesse vivo, ele provavelmente diria a Pondé que existe uma terceira vertente do anarquismo, a única que deu certo: o anarquismo ameríndio.
 
E não estaria sozinho ao dizê-lo, mas ancorado nas ideias de um dos grandes mestres da antropologia, o francês Pierre Clastres. Em A Sociedade contra o Estado, título de um de seus ensaios e livros mais conhecidos, ele critica o preconceito inerente à ideia de que as sociedades indígenas brasileiras seriam “sociedades sem Estado”. Para Clastres, essa é uma visão etnocêntrica e evolucionista que coloca a sociedade moderna como o ponto de chegada necessário do desenvolvimento de todas elas. Um olhar mais atento sobre essas sociedades indígenas percebe que são, na verdade, “sociedades contra o Estado". No mais íntimo de sua fundação e estrutura, elas se organizam para impedir o surgimento da desigualdade e, com base nela, do Estado. Por isso, para Clastres, a origem da desigualdade não é econômica, mas sim política: “A relação política de poder precede e fundamenta a relação econômica de exploração. Antes de ser econômica, a alienação é política, o poder antecede o trabalho, o econômico é uma derivação do político, a emergência do Estado determina o aparecimento das classes".
 
Por essa razão, mesmo com a crescente integração à nossa sociedade, a maioria dessas comunidades ainda hoje se mantém em plena igualdade. Nelas, o chefe é apenas um assoberbado porta-voz da tradição, sem nenhum poder de fato, e o indivíduo tem o luxo, como gostava de lembrar meu pai, de “nascer e morrer sem dar ou receber nenhuma ordem”. Sociedades genuinamente anarquistas.
 
A coerência do velho anarquista
 
Mas meu pai não desenvolveu sua disposição anarquista por sua convivência com os indígenas brasileiros — acho que apenas a confirmou ali. Uma das grandes referências humanas de sua vida foi Edgard Leuenroth, coincidentemente também primo do meu avô. Leuenroth foi uma das grandes lideranças anarquistas no Brasil do começo do século XX. Jornalista e tipógrafo, foi um prolífico escritor de textos libertários, editor de várias publicações que divulgavam a causa durante a Primeira República e um dos organizadores da Greve Geral de 1917, que paralisou uma São Paulo já fortemente industrializada e com um proletariado organizado e insatisfeito com as condições de trabalho e vida. Por seus ideais e atuação, Leuenroth passou vários períodos encarcerado.
 
Contudo, para além dessa história de idealismo e militância, o que ele tinha de mais encantador era sua personalidade doce e generosa e, sobretudo, a imensa coerência que mantinha entre suas ideias e sua vida pessoal.
 
Meu pai contava que, certa vez, trabalhando como arquivista no Estadão, Edgard foi comunicado por Ruy Mesquita de que, em função do aumento do acervo e da demanda de trabalho, contrataria uma pequena equipe para colocar sob sua chefia. Leuenroth, entretanto, respeitosamente declinou, pois não aceitava chefiar ninguém. Em ocasião anterior, quando estava preso após seu envolvimento nos movimentos de 1917, alguns companheiros propuseram lançá-lo candidato a deputado como forma de protesto por sua prolongada detenção. Ele também recusou a ideia por se chocar com seus ideais anarquistas — não compactuaria com as formas de poder do Estado nem para protestar contra ele.
 
Esse tipo de coerência é hoje muito raro. Não é consequência exatamente de um afrouxamento moral, mas de uma sociedade estruturada precisamente para nos desconectar das consequências complexas de nossos atos cotidianos e permitir alguma paz de consciência — aquilo a que Hannah Arendt tão bem definiu como “banalidade do mal”.
 
Imagino que Edgard teria se encantado se tivesse a oportunidade de conhecer uma sociedade indígena brasileira durante sua vida — e não creio que essa percepção, dos indígenas brasileiros como anarquistas, lhe escapasse.
 
Há uma história pouco conhecida nesse sentido. No começo do século XX, o militante anarquista francês Paul Berthelot, que Edgard provavelmente deve ter conhecido, mudou-se para o Brasil. Depois de passagens por Rio e São Paulo, Berthelot veio para Goiás, mais especificamente para o Rio Araguaia, exatamente com a intenção de investigar se as comunidades indígenas brasileiras poderiam ser tomadas como modelos de comunidades anarquistas. Nunca consegui encontrar nada sobre sua viagem, nem suas conclusões. Berthelot morreu na região e está enterrado em Conceição do Araguaia, no Pará. Eu o incorporei como um dos personagens de Cartas do Kuluene, documentário lançado em 2011 na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
 
Mas, enfim, talvez possamos portanto dizer que há sim uma alternativa ao anarquismo socialista e ao anarcocapitalismo — o anarquismo real ameríndio.
 
Deveríamos então nos converter todos a esse modo de vida?
 
Bem, certa vez, em um programa Roda Viva, o ex-ministro e governador Blairo Maggi perguntou a meu pai se ele “achava que deveríamos todos virar índios?”.
 
Sua resposta foi: “Não, porque não teríamos competência”.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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