Essa semana é muito parecida com uma de janeiro, quando o Big Brother Brasil começa a ir ao ar. Toda vez que um programa da televisão brasileira envolve uma parcela considerável da população, as redes sociais pipocam de pessoas compartilhando fotos e frases rasas criticando quem assiste a esses programas. Dessa vez, é o último capítulo da novela Avenida Brasil. É todo ano do mesmo jeito. Os pobres que gostam desses produtos de entretenimento vão para berlinda e são fuzilados por serem “alienados” e “manipulados”.
Quando, ainda, vejo esses comentários, tenho alguns pensamentos. Um deles, que me vem rapidamente à mente, é a teoria desenvolvida pelo pessoal de Frankfurt sobre a indústria cultural. Geniais, deixaram uma grande contribuição. No entanto, o próprio Adorno, pouco antes de morrer, disse em uma entrevista à rádio que, depois de muitos anos estudando, percebeu que a influência dos veículos de comunicação de massa sobre a população não era tão violento, definitivo e determinante como pensava.
Fico assistindo a esses defensores da cultura não-noveleira bradando seus discursos, parecendo os frankfurtianos (no sentido negativo, pois eles têm lá o seu lado positivo) e fico pensando se eles, fora o tempo em que dormem, estão constantemente se enriquecendo, aprendendo, militando, lutando, produzindo e trabalhando. O que fazem essas pessoas quando ficam cansadas, não querem mais trabalhar ou estudar?
Provavelmente tomam uma cerveja, ficam vendo no Facebook o que outras pessoas escreveram durante o dia, jogam sinuca. Vêem seriado, lêem Paulo Coelho, 50 tons de cinza ou qualquer best-seller que compram no aeroporto. Assistem ao futebol, jogam baralho ou videogame. Isso se chama lazer. Isso se chama vontade de desligar o cérebro, porque você está cansado. De fato, novela não acrescenta em nada. E nem todo entretenimento tem que acrescentar. Como nenhum dos que descrevi acima acrescentam. O que não acho decente é criticar o lazer do outro, julgando o seu mais interessante, mais cult, mais agregador.
Menos decente é achar que a “massa” trata-se daquela coisa que amontoa um monte de gente que não é você. Que aquele coletivo de pessoas que não tem senso crítico é incapaz de reflexão. Que eles vão ser iludidos com o que se passa na televisão e só você é capaz de distinguir realidade de ficção. Indecente acreditar que são indivíduos absolutamente domináveis pelo que se passa na novela. Que, definitivamente, vão aprender com a Carminha como ser falsa e espertinha. Isso nem Adorno achava, em 1968. No fundo, o que todo mundo quer, desde sempre e há muito tempo, é fugir de sua realidade um pouco. Vendo um filme, assistindo a uma peça, lendo um folhetim, participando de um videogame ou vendo novela.
A verdade é que temos alguns problemas. Um deles é que sentimos a necessidade de achar utilidade para tudo. Tudo deve, de alguma forma, agregar valor para que sejamos mais interessantes, inteligentes e qualificados. O que não agrega, é descartado. É por isso que vivemos a síndrome do peso na consciência quando fazemos nada. Um sentimento de culpa gigantesco quando estamos com pé para cima. Atire a primeira pedra quem no primeiro dia de férias não se sentiu como cachorro quando corre atrás de pneu de carro. Corre, corre, corre e quando alcança não sabe o que fazer. Daí, tentar achar utilidade até para seu lazer.
Minha gente, menos culpa. Ou vocês acham que os ministros do Supremo Tribunal Federal chegam em casa depois do julgamento do mensalão e vão reler os processos? Que Dilma não tem lá seu momento fútil? O que você faz no seu trabalho, o que você estuda, como você se envolve com as causas sociais, os livros que você lê, como se preocupa com os problemas de seu país, devo lhe dizer, não tem a ver com o que você faz no seu momento de lazer. A vida que se toca fora dos momentos de lazer é uma. A que se faz em frente à televisão, por uma horinha do dia vendo novela, é outra.
O ócio criativo existe, é claro, e diria que poderia ser preferível. Lembro-me quando estive em Berlin e chegava na casa onde estava hospedada às 18 horas e os meninos de 20 e poucos anos jogavam xadrez, liam livros e tocavam seus instrumentos. Mas, sinceramente, quando penso na maioria dos brasileiros que sai de casa antes das seis horas, pega não sei quantos ônibus, em pé, trabalham oito horas ou mais, voltam para casa nas mesmas condições. Qual a vontade desse sujeito? Ler Kafka? Pegar outros ônibus para assistir a uma peça no centro (longe de sua casa)? Claro que não, é ver novela!
A triste realidade é que, infelizmente, a vida tal qual ela é nos tempos contemporâneos nos exige hobby. Essa vidinha medíocre nos exige lazer, depois de trabalhar, trabalhar e trabalhar. Pior, as condições que trabalham a maioria dos brasileiros não favorecem um ócio criativo. Gláucia, funcionária de casa, começa a trabalhar às seis e meia da manhã, faz curso no SENAC à tarde, e ensino médio à noite. Que tipo de ócio criativo cabe numa vida dessas? Sou eu quem vou julgá-la por chegar em casa e assistir à Gabriela? O que mais a TV aberta oferece a essa hora?
Não defendo a televisão brasileira. Nem de país algum! Em Portugal são super comuns aqueles programas vespertinos discutindo problemas familiares da vida dos outros. E, como todo mundo sabe, reality shows são fenômenos em todo canto. Seriados com besteróis também são facilmente exportados, como exportamos as novelas. A programação das televisões é uma briga longa, complicada e atrelada numa teia maior, que tem a ver como esse jeito de vida medíocre que a gente leva. O que estou defendendo aqui, antes, é que cada um tenha seu tempo desliga-cérebro. E nesse tempo, que se faça o que quiser. E não vai ser mais ou menos esclarecido ou cult por isso.
Provavelmente faz muito mal alguém que acompanha uma programação televisiva das seis da tarde à meia noite. De Malhação à Gabriela. Ou quem vê jogos o dia todo. Porque, nesse caso, essa pessoa está preferindo não pensar por todo esse tempo. Assim como não deve fazer bem quem trabalha das oito da manhã à meia noite. Admitir que você não tem que ser eficiente e ativo o tempo todo deve ser o melhor a se fazer. Admitir que todo mundo tem seu tempo em que faz alguma coisa que relaxa e o cérebro descansa, vai te fazer mais tolerante. Por fim, admitir que seu lazer não é mais cult que o do outro, vai te fazer menos chato.