Minha mãe nunca gostou de cachorro. Tivemos uns três que ela mal deixava ficar na área. Só no quintal. Até que há quatro anos ela redescobriu a maternidade depois de três filhos criados. Veio o Dalai. Uma bolinha branca de pelo, Lhasa-Apso, que ganhou o coração dela e de toda família, claro. E com razão. Uma manha e educação em pessoa. Cachorro, digo. Senta para pedir comida, para passear, implorar colo. E é companheiro. Não esqueço quando minha mãe ficou com dengue. Dalai adoeceu junto. Ficou sete dias convalescido aos pés da cama dela. Por essa e por outras, recebe todos os mimos.
Aí você imagina: meu irmão saiu de casa em junho, em julho minha irmã, e estamos eu e Dalai dividindo amor de dois adultos carentes. Até que numa bela manhã de sexta, saio atrasada, ressaqueada da festa de lançamento da Redação, e o Dalai aproveitou a brecha do portão se abrindo e fugiu sem eu ver. Geralmente, ele volta, mas esse dia ele não apareceu. Ao meio-dia minha mãe me liga aos prantos: roubaram o Dalai. Colocou carro de som na rua, passou de sala em sala da escola do bairro onde é diretora pedindo ajuda das crianças, procurou esquina por esquina. Toda a vizinhança já sabia que tinha um cachorrinho branco perdido.
Vivo no Jardim Novo Mundo desde que nasci. Meu pai comprou um lote e construiu nossa casa há quase 30 anos. Com todas notícias de tiros e drogas, sempre vivi na contramão do que aparecia no jornal. Roubaram uma boneca e uma furadeira há mais de 25 anos e um notebook há quatro porque quando saímos deixamos a porta aberta. E nada mais. Brinquei na rua toda a infância, temos amizade com a vizinhança, estamos perto de tudo que precisamos e gostamos demais de nossa casa: não tinha do que reclamar.
Mas o Dalai, nesse dia, nos fez mostrar que vivemos numa bolha. De costas, literalmente, para o que acontece no bairro. Minha mãe deu uma de Poirot e seguindo algumas pistas, descobriu que Dalai estava numa boca de fumo, há menos de 500 metros de casa. Um lugar que nunca soube existir. Por pouco ele não foi trocado em pedras de crack. Uma dependente da droga, bem magra, catadora de papel foi quem contou para minha mãe com quem Dalai estava. A moça perguntou se seria recompensada se ele fosse encontrado. Minha mãe disse que sim. “Mãe, agora que a gente tem dinheiro, vamos comprar um pastel e um suquinho?”, disse a menininha à mãe.
Quando minha mãe me contou isso, ficamos refletindo: no banho semanal do Dalai, que custa cinco vezes mais que o desejo da criança. As bolachas recheadas que ele come e os filés mignons e pizzas que a gente divide com ele. Era tudo muito medíocre perante a realidade de quem vive catando material reciclável, dependente de crack e tem uma filha que, só por muita sorte, não vai escapar de um futuro infeliz. Ela era doce e falava: “mãe, olha como eu tô linda”. Tinha acabado de tomar banho, mas a mãe mal reparava.
De noite, fui com minha mãe novamente atrás do suposto ladrão do Dalai e finalmente conseguimos resgatar o nosso cachorrinho. Estávamos muito felizes, mas a mãe dependente e a filha não saiam de nossa cabeça. Pensamos que a única saída era tirar a menina de lá. Pensamos em adotá-la ou ajudá-la de alguma forma. Aquela história toda tinha algum recado para nos dar. Sem saber o que fazer, minha mãe acabou parando num supermercado e fez uma compra do mês para elas. E comprou um pastel e um suquinho. O Dalai continua com seus mimos. A menininha, provavelmente, sem o pastel. E eu não tenho nenhuma bonita conclusão para dar para vocês. Mas de alguma forma eu queria dizer que minha mediocridade foi atacada. E não consigo mais ignorar o que mora ao lado.
Nádia Junqueira é jornalista