O último mês de novembro assinalou na historiografia literária o bicentenário de nascimento do escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Nascido no ano de 1821 em Moscou, Rússia, Fiódor Dostoiévski é um dos maiores nomes da literatura universal. Dono de vasta produção literária em que se destacam os romances, o autor russo escreveu ensaios, novelas e contos que respondem por uma literatura encorpada do ponto de vista estético.
Em atenção aos dois séculos de nascimento do autor, nas últimas semanas veículos diversos da mídia trouxeram extensas reportagens sobre a importante data, sendo que muitas delas ouviram especialistas na obra do autor russo. Dentre os variados apontamentos sobre a verve dostoievskiana, chama a atenção a que registra haver significativas correspondências entre a literatura do escritor russo e a cultura brasileira, literária ou extraliterária.
Em torno dessa faceta, a religiosidade presente em importantes narrativas do autor, sobretudo em “Os Irmãos Karamazov”, apresenta instigantes correspondências com a cultura do Brasil. Dentre os recortes religiosos que podem ser feitos dessa interface Dostoiévski-Brasil, o capítulo intitulado a “Lenda do Grande Inquisidor” é dos mais explorados e analisados pela crítica especializada. Segundo Otto Maria Carpeaux, autor de “A História da Literatura Ocidental”, a célebre passagem de “Os Irmãos Karamazov” apresenta uma relativa impropriedade, pois o autor russo não conheceria o catolicismo ocidental de maneira suficientemente profunda para a composição da lenda presente em seu romance.
Mas há outra vertente, também de natureza religiosa, que relaciona a obra-prima de Dostoiévski à cultura brasileira. Trata-se da correlação possível de ser rastreada entre “Os Irmãos Karamazov” e a fenomênica mediúnica que relaciona o espiritualismo e o espiritismo, instauradores de uma das muitas vozes presentes no romance, que foi apontado por Mikhail Bakhtin como sendo a obra fundadora da polifonia romanesca, embora críticos como Harold Bloom discordem da assertiva do teório conterrâneo de Dostoiévski quanto à primazia do autor em relação à polifonia no romance.
A depender dos recursos gráficos da edição, o extenso romance que inspirou Sigmund Freud pode chegar a quase mil páginas. Dividido em Quatro Partes, subdivididas em Livros, que por sua vez são divididos em capítulos, o romance é uma produção densa em todos os sentidos do termo. No Livro XI, da Quarta Parte, o capítulo IX recebe o título de “O diabo: o pesadelo de Ivan”. Nele, Ivan Karamazov, o personagem intelectual do romance, tem uma alucinação em que se vê diante do diabo, com quem entabula uma conversação que ainda não foi tão explorada quanto a passagem do grande inquisidor.
Durante a conversa com o canhestro demônio, a entidade representativa do mal faz alusão aos fenômenos mediúnicos que eram comuns à época na Europa, que redundaram no estabelecimento do espiritismo por Allan Kardec. Sobre a vasta gama de fenômenos insólitos que provariam a vida no além e a fé a que conduziriam, o diabo de Dostoiévski ironiza tudo nestes termos: “A fé não se impõe. Aliás, neste domínio, as provas, mesmo as materiais, são ineficazes. Tomé acreditou porque queria acreditar, não por ter visto o Cristo ressuscitado. Assim, os espíritas… gosto muito deles… imagina que acreditam servir a fé porque o diabo lhes mostra seu chifre de vez em quando. ‘É uma prova material da existência do outro mundo’. O outro mundo demonstrado materialmente! Que ideia!”
A biografia de Fiódor Dostoiévski registra seus conhecimentos acerca dos fenômenos mediúnicos e da estruturação do espiritismo kardequiano. Na década de 70 do século 19, o consagrado escritor participou de sessões mediúnicas, das quais saiu com impressões que seriam respaldadas pela ortodoxia cristã. As vozes coletivas que o diabo dostoievskiano registrou como alusivas à prova material da existência do outro mundo possuem um amplo registro e incidência na cultura, com destaque para a arte literária e, atualmente, a cinematográfica.
A MESA, OS LIVROS E UMA IDENTIDADE
Em “A Mesa, O Livro e Os Espíritos: Gênese, Evolução e Atualidade do Movimento Social Espírita entre França e Brasil”, a antropóloga francesa Marion Aubree e o pesquisador François Laplantine apresentam e analisam os fenômenos paranormais do século 19 que ficaram conhecidos como mesas girantes, bem como seu desdobramento no tempo e no espaço, com ênfase em seu percurso entre a França e o Brasil. Consistiam os fenômenos em deslocamentos de objetos físicos, sobretudo mesas, sob o testemunho atento e atônito de pequenas ou médias plateias que se divertiam e brincavam com o insólito acontecimento.
O antropólogo e pesquisador da USP, Reginaldo Prandi, registra em sua obra “Os Mortos e Os Vivos: Uma Introdução ao Espiritismo” a informação do escritor Arthur Conan Doyle acerca do fenômeno inicial que originou toda uma série de outros correlatos que ganhou o mundo nas últimas décadas do Oitocentos. O início foi no Condado de Hyddesville, em Nova Iorque, no ano de 1847, quando a família das irmãs Kate, Mag e Catherine Fox foi surpreendida com estranhos barulhos pela casa. Estabelecida uma sematologia que traçava uma equivalência entre o número de batidas e as letras do alfabeto, foi possível todo um diálogo com o inusitado fenômeno, que se identificou como sendo a alma defunta de um caixeiro viajante assassinado na residência.
A historiadora Mary del Priore informa em “Do Outro Lado: A História do Espiritismo e do Sobrenatural” que Hyddesville funcionou como um rastilho de pólvora. O fenômeno atravessou o Atlântico e ganhou a Europa, passando a fazer parte dos saraus nos salões do Velho Mundo. Em 1855, o escritor Victor Hugo entraria em contato com a novidade, que lhe foi apresentada pela escritora francesa Delphine de Girardin. Em suas experiências com a mesa, seu filho, Charles Hugo, vai revelar-se sensitivo, designação que daí a alguns anos ganharia a sinonímia de médium, conforme registra Priore.
Seguindo o mesmo procedimento tiptológico das irmãs Fox, Hugo conversaria com a alma de vários de seus pares célebres do passado. Suas sessões foram registradas em atas, que foram resgatadas pelos responsáveis sobre o acervo do criador de Jean Valjean de “Os Miseráveis”. Editores brasileiros adquiriram o direito de traduzir e publicar o material no Brasil, intitulando a obra como “O Livro das Mesas: As Sessões Espíritas da Ilha de Jersey”.
No cinema, o etos que se desenvolve entre a mesa e o além espiritual é apresentado em easter egg pelo cineasta Cristopher Nollan em seu já clássico “Interestelar”, de 2014. Na primeira cena em que aparece a estante visitada pelo fantasma do roteiro de Nollan, o espectador atento pode observar a lombada de um grosso livro onde se lê o título “Obra Completa de Arthur Conan Doyle”.
O criador de Sherlock Holmes tem em seu registro biográfico um grande interesse pelos fenômenos paranormais mediúnicos, divulgando-os em palestras e livros, como o que no Brasil foi traduzido com o título de “História do Espiritismo”. Nesta obra, Doyle registra os extraordinários fenômenos e personagens que se seguiram às irmãs Fox, auxiliando na construção do imaginário espiritualista e espírita dos séculos 19 e 20.
A partir, pois, de um inusitado móvel doméstico, a mesa, instaura-se toda uma identidade cultural que vai do espiritualismo ao espiritismo kardequiano e que foi registrada pela literatura, sendo que atualmente o cinema e a televisão têm dado conta, ora de maneira sutil, ora de maneira explícita. Na perspectiva ortodoxa de Dostoiévski em “Os Irmãos Karamazov”, pois, são muitos os momentos em que o diabo mostra seu chifre.
Na perspectiva heterodoxa de um dos Pais da Igreja, Orígenes, com a sua apocatástase, trata-se de um breve aceno das almas defuntas para os anjos caídos que constituem a humanidade.
*Gismair Martins Teixeira é pós-Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor-pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.