Logo

O Brasil que sempre foi dividido

10.05.2016 - 08:39:19
WhatsAppFacebookLinkedInX
 
Brasília – “O Brasil está dividido. E quem dividiu foi o PT”. No mar de argumentações a favor do impeachment e condenando o (ainda) atual governo, essa foi e ainda tem sido uma das frases que mais passaram pelas tribunas do plenário da Câmara dos Deputados. Essa argumentação preocupa porque explicita que o que está em jogo nesse contexto é, de fato, muito mais que uma crise econômica, política, a corrupção e troca de governos. 
 
Não se trata da divisão verde-amarelo versus vermelho, contra impeachment, a favor de impeachment, fora Dilma e fora Cunha. A referida divisão, como disse, com todas as letras um deputado do Solidariedade, se trata: de homens versus mulheres, negros versus brancos, homossexuais versus heterossexuais, patrões versus funcionários, oprimidos versus opressores (sic).
 
Há dois pontos a serem observados: a divisão em si e o ódio que impera sobre os divididos. 
 
Esta divisão não parece ter sido inventada nos últimos 13 anos. Não está nas costas do PT. Ela sempre existiu e sempre guardou profundas violências que, com o passar do tempo, têm deixado de ser invisíveis e passaram a incomodar. Basicamente porque estas divisões são sustentadas por crueldade e injustiças que violam a liberdade humana. 
 
Imagino que, ao dizer que não há mais paz e há divisões, deputados e portadores desse discurso se refiram a episódios (praticamente inéditos, do ponto de vista histórico) como o que aconteceu há cerca de um mês em Goiânia. Na sala de uma turma de Psicologia da UFG um professor, de acordo com alunos da turma do 1º ano, reclamava do mau desempenho dos estudantes que acabaram de ingressar na universidade e creditou isso à política de cotas raciais. Com gritos de racista, ele foi constrangido a deixar a sala e a faculdade. 
 
E o que há por trás, então, desta cena de constrangimento? Considerada como um cenário de divisão e de fim de paz, por portadores deste discurso? 
 
Negros, que sempre foram os empregados domésticos, perceberam que têm o direito de também serem médicos, arquitetos ou o que quiserem. Empregados domésticos, por sua vez, perceberam que têm direitos trabalhistas como qualquer outro trabalhador. E que podem cobrar carteira de trabalho, férias, décimo terceiro e podem dizer não para a patroa. Já a patroa percebeu que pode ser injusto que seja a única responsável pelas atividades domésticas de uma casa onde há filhos e marido, além de também ser responsável pela renda do lar. Percebeu que pode conversar sobre isso. E que, se for agredida ao falar sobre isso, pode denunciar e que apanhar do marido é assunto de Estado. 
 
Sua filha percebeu que não está errado usar batom vermelho e andar de saia curta. E que se ela for assediada por conta disso, o problema está em quem a assediou e não em seu comportamento. Já seu amigo, homossexual, percebeu que não há nada de errado ter desejos e vontades diferentes da amiga, que gosta do sexo oposto. E que pode ter direitos como ela: de se casar com quem ama e de adotar filhos. Percebeu que não é ele e seus amigos que estão errados. São aqueles que batem e matam seus pares.
 
Essas percepções tiveram, com certeza, um empurrão das políticas públicas do Estado nos últimos anos. As cotas raciais começaram a ganhar a discussão no espaço público brasileiro em 2000 e em 2004 a UnB foi a primeira instituição a adota-las. A lei Maria da Penha foi sancionada em 2006 e a do feminicídio apenas no ano passado. Em 2011 o Supremo Tribunal Federal reconheceu a equiparação da união homossexual à heterossexual. A chamada PEC das domésticas foi promulgada em 2013 e somente no ano passado direitos como FGTS, seguro-desemprego e auxílio-creche foram estendidos à categoria. 
 
Não há como haver paz, com certeza, nesse contexto. Não se o outro lado não estiver disposto a enfrentar, de mãos dadas com o lado que emerge da marginalidade, as mudanças que caminham para uma coerência com a Constituição e com uma carta que, desde 1948, é sistematicamente ignorada e violada. 
 
Lembrando do incrível “Que horas ela volta”, temos, então, uma geração de novas Jéssicas (Camila Márdila) bem cientes de seu lugar. Que não é mais no quartinho dos fundos e que têm direito a uma cama boa e a uma vaga na universidade. 
 
Só pode haver paz em duas circunstâncias: quando se aceita o novo lugar de quem sempre esteve à margem dos direitos. Ou quando os marginalizados não chegam perto de seus direitos nem de reivindica-los porque não tem, sequer, ciência deles. Uma geração de Vals (Regina Casé), que vivem acomodadas no quartinho dos fundos alheias a seus direitos. É verdade, assim, a divisão parece não existir. Parece que todos convivem bem acomodados em seus devidos lugares historicamente construídos. Aí, não há alguma tensão. Há a permanência de uma desigualdade cruel travestida de paz.
 
Parece que temos que dar tchau, definitivamente, para pessoas como Val. As Jéssicas estão aí. Ninguém está mais disposto a dar um passo atrás rumo à perda de direitos. Por isso vai haver gritos em faculdades. Vai haver protestos nas ruas. Vai haver empregadas dizendo não para as horas trabalhadas no fim de semana não remuneradas. Tudo isso é, justamente, para corrigir um cenário centenário de violência sistemática. A fantasia de paz que havia sobre a crueldade das desigualdades vai embora. Está desnudo. 
 
Desnudo igualmente parece estar o ódio ao saber que este outro lado não quer mais ficar no seu lugar de sempre. O ódio que tenta manter a mulher, o negro, o pobre, o gay no mesmo lugar de sempre. A mulher ressentida no lar. O negro calado limpando o chão. Os pobres conformados distantes dos espaços de poder e de conhecimento. Os gays enrustidos no armário. Ninguém mais volta: nem para a cozinha, nem para o armário, nem para a senzala.
 
Ou construímos a paz aceitando isso e promovendo ainda mais circunstâncias para que todos saiam de vez desses espaços e floresçam em sua humanidade sendo o que são de forma livre e justa. Ou autorizamos a chegada do ódio e a volta, à força, para esses espaços. Prefiro, portanto, o lado do incômodo e da paz que ainda está sendo construída do que o lado dos que têm nostalgia da paz que guardava a crueldade escondida. E que, em nome dela, exalam o ódio que desumaniza e tira vidas.      
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]