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O caráter que não se aprende na escola

13.11.2013 - 12:11:29
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Goiânia – “Caráter se aprende na escola”. Era essa a manchete que estampava a capa da revista Época da edição da semana passada. Desafiei a revista a me convencer da promessa da capa e li a matéria. Terminei a leitura com um certo pavor. Foram três motivos. Antes de desenvolvê-los, traduzo o que se entende por caráter na matéria: capacidade de se dedicar a um projeto individual com disciplina. 

O primeiro motivo do meu pavor. A revista deixa claro em toda a construção da argumentação que costura a matéria: o caráter não só se aprende na escola, mas somente naquelas privadas. Alguns personagens da matéria são os pobrezinhos que conseguem uma vaga com bolsa nessas escolas (para, então, aprenderem caráter). Pessoas esforçadas e exemplos para todos os outros pobrezinhos. Os chamados vencedores, que enfrentam todos os obstáculos "pra ser alguém na vida". Há um tempo escrevi que ninguém é obrigado a ser vencedor (leia aqui), esse discurso batido e repetitivo e por isso não vou me deter nesse ponto.

Vamos ao ponto: reproduzo parte do último parágrafo, se referindo a essa abordagem que explora a disciplina individual. “Há algumas ressalvas a essa abordagem. Primeiro, os educadores se preocupam se países como o Brasil, onde as escolas públicas não conseguem nem ensinar português e matemática, têm condições de cobrar que os professores também ensinem os bons traços de personalidade”.  

A primeira pergunta que me veio à cabeça foi: que diabos português e matemática têm a ver com caráter? O que compreender diferença de objeto direto de indireto tem a ver com sonegar impostos? Qual a relação entre ter domínio de progressão aritmética e não ser corrupto? Onde reside a incapacidade de professores de escolas públicas em não ensinarem “bons traços de personalidade”?

Ao ler esse trecho me veio à mente uma entrevista que fiz com professoras da Educação da UFG sobre resultados parciais da experiência de cotas na universidade (veja matéria aqui). Os alunos que vêm do ensino público, de acordo com as professoras, são aqueles que se envolvem politicamente com a universidade. Fazem parte de centros acadêmicos e diretórios estudantis. A razão é simples: é o meio que encontram de se organizar e reivindicar demandas que lhes interessam, como aquelas relativas à permanência: alimentação, transporte, moradia, etc. 

De acordo com as professoras, eles vêm das escolas públicas com experiência em grêmios estudantis, mais raros em escolas privadas. Elas ainda disseram que estes alunos estão acostumados a ter contato e diálogo próximo com os professores. Ora, me parece que essas condições são mais favoráveis à formação de caráter do que seis aulas de 45 minutos de mais de 20 disciplinas diferentes, como manda a grade das boas escolas particulares.

Ter senso de comunidade, de participação política e coletiva soa mais determinante na formação de um caráter do que o desenvolvimento de um atributo individual tal qual disciplina para dedicar-se aos estudos que lhe favorecerão tão só individualmente: o vestibular que vou passar, no curso que vai me prover melhor salário para realizar meus desejos medianos materiais. Comprar meu carro, minha casa, pagar pelo meu plano de saúde e fazer minha viagem internacional uma vez por ano.   

A segunda argumentação que me preocupa: escola ser o espaço onde se aprende caráter. Não sei o que é pior, a escola receber essa responsabilidade única de formação de caráter ou a escola, tal qual temos, ter esse papel. 

Primeiramente porque são muitas as esferas responsáveis pela formação do caráter de um sujeito e a escola é apenas um deles. Esse caráter se aprende numa conversa com o avô, que tem muita experiência de vida. Nos exemplos dos pais, que levam a vida cotidianamente com honestidade e respeito às pessoas. Nas experiências com arte e esporte – esses, sim, ensinam disciplina. Nas atividades políticas ou religiosas. Na convivência em ambientes sociais variados que mostram a pluralidade do mundo e das pessoas e desenvolvem a capacidade humana de conviver com as diferenças. 

Em segundo lugar. Se nossa escola fosse lá uma instituição que educasse os sujeitos, de verdade, até poderíamos dar a ela essa responsabilidade pesada que a matéria emprega. Mas nossas escolas ensinam a passar no vestibular. Ensinam os homens a serem úteis ao mercado. Modelam os alunos para que sejam cada vez mais uniformizados e disciplinados, tolhendo criatividade e talentos. O diferente sempre dá trabalho para o professor. 

E, então, chego ao terceiro ponto. Talvez o que me preocupa mais. Na matéria, caráter se confunde maravilhosamente bem com uma espécie de papel no mercado de trabalho, o que acho muito mais perigoso. Fala-se em caráter para se falar no perfil de um bom trabalhador: alguém que se disciplina para ser bem sucedido no mercado de trabalho. Socorro! Eike Batista seria, então, meu exemplo de caráter?

Se me permitem lhes desanimar, nem transformando todas as escolas públicas do mundo num padrão WR (conhecida escola particular de Goiânia) teremos garantia de pessoas com bom caráter. Porque tecnicismo não tem nada a ver com caráter. Formar pessoas que se dão bem no mercado de trabalho tem pouco a ver com formar bons sujeitos pra sociedade. 

Se realmente caráter se relacionasse à conquista do mercado de trabalho, diria que meus avós foram sujeitos com caráter muito duvidoso: alguns deles, semi-analfabetos. Imaginem o perigo! Outros passaram longe do mercado formal de trabalho. Diria então, que eles têm um caráter mais duvidoso que dezenas de fazendeiros goianos que até hoje empregam trabalho escravo?

O desafio, meus caros, não é simplesmente melhorar o ensino que temos. Nem tirar todas as crianças da rua e enfiar na escola confiando que essa será a saída para lhes transformar em bons cidadãos. O desafio é transformar nossas escolas em uma coisa completamente diferente do que é. Enquanto educar se confundir com ensinar português e matemática, jamais formaremos pessoas de bom caráter. O objetivo de nossas instituições hoje não é formar bons sujeitos, mas bons trabalhadores. 

E, olha, um bom trabalhador não serve para muita coisa. Serve para, de um lado, pagar suas próprias contas e satisfazer seus pequenos prazeres . De outro, encher os bolsos do patrão ou servir a um Estado cujos interesses muitas vezes correm longe daqueles públicos. Quando muito, desenvolver técnicas e tecnologias para melhorar o que já temos. Sem nenhuma mudança que vá à raiz de nosso problema: conseguirmos formar bons sujeitos, afinal.

Usando as palavras de um professor mestre em Educação que, por acaso, foi meu principal educador. “Tem que sair da escola pra vê se aprende alguma coisa”.
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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