Logo

O coração do coração do Brasil

30.06.2011 - 11:39:20
WhatsAppFacebookLinkedInX

Não raro, ouço queixas sobre Goiânia de amigos de outros estados e até de goianos da Capital e do interior. Algumas até acho válidas. No entanto, defendo – não desde criancinha, pois passei a apreciar a cidade há pouco tempo – com unhas, dentes, informações e argumentos o município que eu escolhi para viver. Aliás, que me escolheu, pois me recebeu em 2001 de braços abertos e com oportunidades progressivas.
    O palco onde idealizei este texto é um desbunde. Tive a ideia de escrevê-lo enquanto corria no Lago das Rosas, atividade que cumpro religiosamente ao menos três vezes por semana sempre no mesmo lugar. Era manhã de domingo. Enquanto eu percorria meus dez quilômetros, outros atletas de fim de semana faziam o mesmo, famílias realizavam piqueniques, casais namoravam, avós passeavam com seus cachorrinhos e assim por diante. Todas as tribos na mais perfeita harmonia pintam esse quadro dessa cidade pequena, nova, plural e acolhedora.
    O cenário não é exclusividade do hospedeiro do Zoológico de Goiânia, que arrasta uma mácula, queira Deus, somente até outubro, para quando o prefeito Paulo Garcia promete reinaugurar o espaço. Outros parques e bosques da capital têm a mesma configuração. Eles não são restritos, vale lembrar, às áreas nobres da cidade.
    Bairros bem vistos pela especulação imobiliária como Oeste e Jardim Goiás desfrutam desses oásis verdes tanto quanto setores com metros quadrados menos valorizados, como Goiânia Viva e Goiânia 2, por exemplo. As estruturas são as mesmas. Hoje moro no Bueno e corro no Lago das Rosas, mas vivi no São Judas Tadeu e fazia o mesmo no Goiânia 2. O objetivo não é me ater, entretanto, às meninas dos olhos da Agência Municipal do Meio Ambiente.
    Minha vizinha me presenteou com uma bacia de pães de queijo na noite de sábado. Não foi a primeira vez que a odontóloga quis me agradar com sua habilidade culinária. O proprietário do meu apartamento, com idade para ser meu pai, me convidou para o noivado dele com uma simpática morena com quem troquei poucas palavras nas duas vezes que vi. Fiz questão de ir.
    Estar sem carro não é impedimento para sair. Meus amigos não admitem que eu tome táxi. Ser apanhado e deixado na porta do prédio é uma constante. Não temos referência em alta gastronomia, mas não é difícil comer nem beber bem por aqui e a preço justo e com o chef da cozinha bebericando na nossa mesa.
    Até agora, as linhas que tracei podem soar, a quem tem outros tipos de ambientes, vizinhanças, costumes e círculos de amizades diferentes, como algo bem tacanho, como costumam classificar Goiás e Goiânia. No entanto, tudo isso faz parte do jeito goiano de ser. E do jeito goianiense de viver. Porque, apesar de ser capital e de ter um milhão de habitantes, Goiânia vai ser para sempre o coração do coração do Brasil.
    Não temos praias banhadas pelo Atlântico, aeroporto internacional – é assim que a Infraero enquadra o Santa Genoveva – digno, voos diretos para todas as demais capitais brasileiras, vários políticos de projeção nacional, grande quantidade de músicos com milhões de cópias vendidas, artistas plásticos frequentemente em exposição na Bienal de São Paulo nem escritores entre os mais lidos. Temos, contudo, o ceu mais puro do inverno, a chuva mais gostosa do verão, o amarelo mais luminoso da primavera – leia-se ipê – e o tapete de flores mais harmônico do outono.
    Além de todos os nossos simples fatores naturais, que têm cheiro, cor, gosto, textura e som os mais límpidos possíveis, com os quais não há nada entre e o Leme e o Pontal que compita, há uma gente tão generosa e de coração tão afável que ouve ingratas reclamações estrangeiras, mesmo quando o autor é recebido com um abraço, e retribui com outro abraço. E o abraço do goianiense não é quente nem frio. É quente, se for inverno, e frio, se for verão. O abraço do goianiense sempre tem a temperatura ideal. Acredito piamente que Deus é brasileiro e que Ele foi registrado em algum cartório de Goiânia.

João Camargo Neto é jornalista

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por João Camargo Neto

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]