Goiânia – A pandemia do coronavírus forçou boa parte da humanidade a uma mudança de hábito, ainda que temporária. Para muitos, a correria do dia a dia deu lugar ao chamado “home office”, o trabalho em casa. Num momento em que a “logomaquia” (guerra de palavras) a que se referiam os gregos antigos atinge o auge entre aqueles que defendem o confinamento e os que querem flexibilizá-lo, muitas informações e alternativas disponibilizadas para quem se encontra preso em casa são colocadas nos veículos de comunicação e entretenimento.
Do erudito ao popular, há informes para todos os gostos. É no ápice de uma situação anômala como a que se vive atualmente que se fica sabendo, por exemplo, que entre um confinamento e outro a humanidade pôde ser brindada e enriquecida culturalmente com os sonetos shakespearianos e a elaboração dos princípios científicos que conduziriam à concepção da teoria da gravidade por Isaac Newton. Infelizmente, porém, são exceções. A visão pandêmica tradicional que circunda o imaginário da humanidade é sinistra, com o espectro da morte rondando cidadãos que no cotidiano pouco se preocupam com a finitude que empolga filósofos de todos os séculos e lugares.
No conjunto do que culturalmente pôde a humanidade pensar em sua longa jornada existencial, que é como o pensador francês Gilbert Durand define o imaginário, o cinema tem apresentado de maneira reiterada uma filmografia que sempre trabalha com a imaginação especulando sobre cenários apocalípticos, distópicos. Nesse particular, vírus e bactérias têm lugar cativo na especulação imaginativa de escritores e roteiristas cinematográficos em sua sobreposição de atividades.
História, imaginação e futuro
Na gama de informações curiosas em tempos de pandemia, algumas são de natureza histórica, permitindo que se especule sobre o futuro. Assim, numa contextualização historiográfica, a mais terrível pandemia do século 20 ocorreu há praticamente cem anos. Com o seu auge entre os anos de 1918 e 1919, a gripe espanhola ceifou a vida de milhões de pessoas no Brasil e no mundo, numa época em que toda a infraestrutura de que atualmente se dispõe era praticamente inexistente.
Foi na esteira da devastação pandêmica da influenza da Espanha, em que corpos eram devorados à porta das casas por urubus e outros animais carniceiros, num espetáculo dantesco, que surgiu o embrião do que viria a ser o atual Ministério da Saúde e o SUS. Por mais que a disputa política onipresente e ideológica inculquem no imaginário popular um certo desprezo por essas instituições, elas representaram um avanço extraordinário em relação ao cenário anterior vivido pelo país.
Essa triste realidade do passado permite, no atual momento, que se possam imaginar os avanços futuros, em todas as frentes, que redundarão do aprendizado a ser tirado da atual pandemia. Provavelmente, essas conquistas transcenderão à atual geração que se debate num interminável conflito ideológico que traz prejuízo a todos. O caminho futuro pode reservar surpresas positivas, que somente serão sentidas pelos futuros habitantes do planeta.
O ponto de partida de roteirização cinematográfica que trata de tragédias coletivas em escala global apresenta bizarrices peculiares em torno de pandemias oriundas de vírus, bactérias, poluições e patógenos diversos. Os zumbis são, certamente, o elemento mais estranho surgido a partir de contágios coletivos. Num panorama geral, a ganância e atraso ético da humanidade é o invariável pano de fundo sobre o qual a imaginação de escritores e roteiristas corre solta.
Um curto episódio da série de TV norte-americana, “Star Trek”¸conhecida entre nós como “Jornada nas Estrelas”, trouxe, em uma de suas temporadas, instigante premissa de roteiro que nos remete a um futuro distante do momento coronavírus que vivenciamos hoje. A nave terrestre Enterprise, que no século 25 corre o universo em busca de conhecimento científico, encontra à deriva uma antiga congênere, também oriunda da Terra, que fora lançada ao espaço na metade do século 21.
Três tripulantes que sobrevivem há quatrocentos anos por criogenia são despertados. Um deles era um dos homens mais ricos da Terra no então distante século 21. Dono de uma individualidade soberba, aos poucos percebe o seu deslocamento no novo contexto sociocultural do século 25. Ao interagir com os terráqueos de quatro séculos atrás, um dos comandantes da Enterprise expressa a sua admiração de como a humanidade pôde sobreviver ao século 21, como espécie, sendo dotada da mentalidade que ele via no exótico exemplar que sobrevivera.
Na oportunidade em que outra espaçonave conduziria os três sobreviventes de volta à Terra, o outrora poderoso cidadão questiona sobre como ele sobreviverá a partir de então. Sua fortuna imensurável se esvaiu; suas posses do passado não mais existem; seu escritório de advocacia há muito desapareceu. A resposta do comandante da Enterprise surpreende: todos os cidadãos do século 25 têm tudo de que precisam; não há mais disputas por poder e ambição, materializados no dinheiro.
Surpreso, o terráqueo do século 21 pergunta, então, sobre qual seria a motivação para viver-se. A resposta é bastante surpreendente. Ou nem tanto. Diz o comandante Jean-Luc Piccard, da Enterprise, que o que move a todos no mundo do século 25 é a perspectiva de o ser humano tornar-se melhor como indivíduo, superando todas as suas falhas de caráter em prol de si e da coletividade
O episódio foi exibido durante o período de quarentena por um dos canais fechados ao público de menor poder aquisitivo da sociedade e é bastante sugestivo. Pandemias como a que se vive agora expõem o quanto a humanidade necessita, ainda, transformar-se para melhor em todas as dimensões possíveis e imagináveis da sua estrutura individual e coletiva para que no futuro ninguém que olhe para trás se espante de como a espécie pôde sobreviver ao século 21.
*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras pela UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO e pesquisador.