Eu me recordo do primeiro dia em que entrei na redação de A Redação. Foi no início de julho de 2011. O escritório funcionava naqueles prédios bonitos que ficam perto do Flamboyant. Minha caçula tinha pouco mais de dois meses e estávamos voltando de uma consulta de rotina no pediatra. A bebezinha virou o xodó dos amigos jornalistas que estavam por lá: Aline Mil, Gabriela Lima e mais alguns que a memória combalida pelos excessos e maus hábitos acumulados pela vida me impedem de recordar. Sorry.
Entrei para a reunião na sala do João Unes enquanto a Narinha era o centro das atenções e saí da conversa com as pernas tremendo. Ele havia me convidado para escrever uma coluna naquele jornal que pretendia mudar a cara do jornalismo em Goiás. E, olhando em retrospecto, ele estava certo: o jornalismo feito em Goiás nunca mais foi o mesmo depois da chegada de A Redação.
Eu sabia que a responsabilidade não era pequena, é claro. Mas eu lá sou daquele tipo de gente que arrega para qualquer dificuldade? Não mesmo. Topei a empreitada. Mas com um baita frio na barriga.
Comecei a publicar meus textos na coluna chamada O Blog. Fui muito feliz nos quatro anos que ocupei espaço, até julho de 2015. Ao longo dessas centenas de textos n’A Redação, um em particular até hoje me faz gargalhar: A Marcha do Todinho.
Sei que o certo é escrever Toddynho, mas quis escrachar. Meu objetivo era escancarar o patético do pleito todinho, por isso escrever Todinho foi uma escolha. O texto foi publicado em agosto de 2012. Impossível esquecer.
Resumindo a treta: foi aprovada no Congresso Nacional uma lei que garantia um percentual nas universidades públicas de cotas para estudantes oriundos de escolas públicas. Os privilegiados de sempre dos colégios caros do Bueno resolveram fazer um protesto contra as cotas. Eles me pediram apoio na divulgação. Quando entendi do que se tratava, escrevi A Marcha do Todinho.
O texto motivou debates mil nas redes sociais. Teve tanto acesso que derrubou o servidor de A Redação. A seção de comentários virou uma guerra: gente me apoiando, gente me detonando, gente inteligente se posicionando, gente tapada dando rata. Tinha de tudo.
O texto ficou tão grande que repercutiu em vários meios de comunicação. Foi citado em matéria n’O Popular. Só que não deram o crédito. Não falaram que Marcha do Todinho surgiu de um artigo publicado na concorrência, em A Redação. Veja você, falaram que o protesto foi batizado nas redes sociais de Marcha do Toddynho.
Sim, surgiu assim, de geração espontânea, do nada. Tsc, tsc, tsc… O termo foi cunhado por um texto meu publicado na Redação. Não custava nada dar o crédito, né?
Tenho um baita orgulho de ter feito essa crítica à manifestação coxinha. Já achava a pauta dos estudantes equivocada em 2012, hoje tenho mais convicção ainda da excrescência daquele pleito. Estar do lado certo da história dá um prazer tremendo. Você duvida que vários daqueles que me detonaram naquele momento hoje são bolsominions? Pois é.
Foram quatro anos bem divertidos que fiquei em A Redação. João Unes me deu toda liberdade para escrever meus devaneios em seu jornal: e até hoje não tenho muita convicção de quem foi mais irresponsável, eu ou ele.
Estou super feliz de estar aqui comemorando essa primeira década de A Redação. Daqui 90 anos, espero que se lembrem ainda dos pioneiros, categoria na qual arrogantemente me incluo, quando estiverem celebrando primeiro centenário do jornal. Fica a dica pro pessoal do futuro.
Vida longa à Redação!
*Pablo Kossa é jornalista e mestre em Comunicação pela UFG
O dia em que eu derrubei o servidor do jornal A Redação
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