Hoje é dia de semana, mas decretamos feriado. Afinal, os
celulares de algumas operadoras deram pane geral e, sem esse maldito
aparelhinho, quase tudo quanto é tipo de negócio para. O empregado não ligou
para o patrão, pois sabia que o celular do chefe também não iria falar. Dona de
casa não ligou para a diarista, pois sabia que tinha manifestação na Praça
Cívica e o celular da trabalhadora também não iria pegar. Tudo bem que a
situação não foi exatamente a que Raul Seixas sonhou, mas foi perto da eterna canção
do mito que vivemos nesses últimos dias. O dia em que a Terra parou. Ops, o dia
em que o celular calou.
É impressionante a dependência que temos de estar acessíveis
e conseguir falar com quem quer que seja. E o pior: naquele exato momento. Não
sabemos mais esperar. Talvez as novas gerações não acreditem, mas existia vida
inteligente sobre a Terra antes da massificação dos celulares. Não era comum
essa ansiedade. Nós ligávamos para a casa do cara e, se ele não estava,
deixávamos recado. Telefonávamos para o trabalho dele e se também não o
encontrássemos, novamente pedíamos que o mesmo retornasse. Depois disso,
iríamos tocar nossa vida enquanto aguardávamos. Ninguém tinha taquicardia,
ninguém ficava desesperado, ninguém sofria por não conseguir conversar naquela
hora. Sei que é nostalgia além da conta, mas que tempo bom que não volta nunca
mais…
Atualmente, só vejo gente roendo a unha por conta de um
sinal que não funciona. São outros tempos, é certo, mas inegavelmente mais
chatos, onde a crescente demanda que cada um sofre pelo celular é diretamente
proporcional aos números de enfarte e casos de estresse. E, é claro,
inversamente proporcional ao prazer de ficar de boa, sem fazer nada, sem ficar
com uma conexão ao mundo em seu bolso esquerdo.
Imagino que um monte de gente tenha ficado com orçamento
prejudicado por conta do silêncio imposto pela falha das operadoras. Sei que
muita gente deve ter ficado preocupada com entes queridos com os quais não
conseguia contato. Aconselho que todos procurem judicialmente seus direitos.
Pagamos uma fortuna por um serviço débil de telefonia celular e internet móvel
no Brasil. Caro e ruim. Típico de nossa tradição tupiniquim. Se você foi lesado,
deve correr atrás de ressarcimento. É mais que justo.
Mas preciso confessar que não me incomodou ficar sem o
telefone tocando ininterruptamente na minha cabeça por um curto tempo. Se eu
fosse um pouquinho mais mala, até falaria para a geral que meu celular até
agora não tinha normalizado e o desligaria. Meu hedonismo pede, meu senso de
responsabilidade não deixa. E meu sonho de abdicar de uma vez por todas do
celular continua me seduzindo mais do que capa de Playboy na banca de revista…