Nádia Junqueira
De Lisboa (Portugal)
Um domingo numa cidade não tão grande. Lisboa amanheceu com esse aspecto na última quinta-feira (24/11), mesmo no Baixa-Chiado, onde sempre há movimento. O marasmo anunciava o que viria logo à tarde, ali pelo Rossio. Antecipando a votação final do orçamento de 2012, os trabalhadores portugueses mostraram ao governo que não estão satisfeitos e estão mobilizados. Uma greve geral, organizada há mais de mês, paralisou todo o país. Lisboa, Porto, Coimba, Guimarães e outros 31 municípios tiveram as ruas tomadas por trabalhadores que não concordam com a perda dos direitos como forma de solucionar a crise econômica.
A paralisação teve a frente as duas maiores centrais sindicais de Portugal, a CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses) e a UGT (União Geral de Trabalhadores). Nos últimos dois anos, essa é a segunda greve geral convocada pelas duas centrais em conjunto. A sétima nos últimos 29. De acordo com o dirigente da CGTP, Fernando Ambrioso, a maior até então. Ele comemorou o aumento da participação do setor privado nessa greve.
Uma das vitórias das centrais nessa greve (e onde os cidadãos mais sentiram a força de uma paralisação) veio do setor dos transportes. A TAP, maior empresa aérea portuguesa, parou, assim como metrôs e ônibus em Porto e Lisboa (maiores cidades do país). Dessa forma, mesmo trabalhadores de empresas que não puderam fazer greve, não tiveram condições de ir trabalhar justificadamente por falta de transportes.
Medidas austeras
Em 11/11, foi aprovado, em primeira votação, o Orçamento do Estado para 2012. Para receber mais uma parcela de empréstimo da Troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e União Europeia), no valor de aproximadamente € 8 bilhões, o governo apresentou orçamento com medidas austeras. Mais rígidas mesmo que as sugeridas pelo FMI e UE. Esse projeto passou tranquilamente pela Assembleia pelo fato do primeiro Ministro Passos Coelho ter em sua base a maioria do parlamento. No entanto, o orçamento ainda vai para votação final dia 30/11 e, por isso, os trabalhadores cruzaram os braços nessa quinta.
“Temos perfeita noção de que não haverá nenhuma alteração imediata. Queremos que o governo analise melhor o plano e saiba que estamos organizados. Não queremos caminhar para uma Grécia”, afirmou Fernando Ambrioso. Além de ter os direitos trabalhistas protegidos diante das deliberações para conter a crise, os grevistas querem a renegociação da dívida, alargando o prazo de pagamento e mais investimentos no setor produtivo.
Contendo a crise econômica, essas medidas propostas pelo governo culminam numa inevitável crise social. Como permitir que empresas privadas aumentem em duas horas e meia a carga horária de trabalho, sem acréscimo salarial. “Desde o século XVIII nós não fazíamos trabalho forçado. Esse aumento da carga horária poderia gerar 250 mil novos postos de trabalho”, reclamou. Para esse ano, os trabalhadores do setor público e aposentados que recebem mais de mil euros já estão privados do subsídio de férias e de natal (chamado décimo terceiro no Brasil).
Os que recebem até € 465 terão o corte progressivo. Haverá congelamento salarial de funcionários públicos, assim como de promoções e progressões. O número de trabalhadores na administração será reduzido a partir de demissões. Os feriados do próximo ano, que não cairão em finais de semana, com exceção de Natal e dia do trabalhador, provavelmente serão extintos.
Os envolvidos
Vindo de Marquês de Pombal, os trabalhadores ligados à UGT se uniram aos da CGTP e seguiram pelas ruas de Lisboa até a Assembleia, onde permaneceram se manifestando. De crianças a idosos, todos se envolveram. Antônio Fernandes foi um desses. Aposentado, está indignado de ter seu décimo terceiro extinto e ter de pagar novos impostos. “Esse governo está a criar fome e miséria. Ele está a retroceder ao tirar nossos direitos”, desabafou.
“Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”, disse a professora Maria Antônia, 55 anos, reclamando serem os trabalhadores a pagar o preço da dívida. Ela acredita que a partir desse mês os portugueses vão sentir, de fato, o peso da crise e das medidas adotadas. Por outro lado, ela afirma que outros colegas da área de educação física já estão comendo a sopa oferecida aos moradores de rua, pelo orçamento limitado em casa. Ela reclama também o fato dos ministros não terem privilégios suspendidos. “Eles continuam a receber subsídio de habitação, mesmo tendo casa em Lisboa”, critica.
Cláudia Tirone, de 19 anos, é estudante na Universidade de Coimbra e conta a realidade dos estudantes na instituição. As bolsas estão sendo suspensas e, gradualmente, os jovens estão deixando as universidades. “É o maior corte desde Salazar”, comentou a universitária se referindo ao presidente ditador. Ela explica que a bolsa mínima, ainda oferecida, é suficiente somente para pagar propinas (as universidades são públicas, mas pagas). “Mas as pessoas não são ricas. Têm que comer, morar, não dá para continuar na universidade”, disse Cristina se referindo aos 800 colegas que já deixaram a instituição. Em cartazes espalhados pelas ruas, via-se a crise chegando gradualmente na realidade de cada português, como se vê na galeria de fotos.
Confronto
No fim da tarde, por volta das 18h, manifestantes tentaram subir as escadarias da Assembleia, derrubando as barras de proteção, o que provocou uma tensão entre os policiais. Objetos foram arremessados e, na confusão, sete manifestantes foram detidos, um policial e um fotojornalista feridos. No entanto, depois de meia hora, a manifestação voltou ao normal, sem mais tensões.