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O estopim do amor

11.06.2017 - 14:01:36
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Pensou então que o silêncio pudesse conter uma palavra que… que… explodisse. Com o dizer daquilo que apertava na garganta. Se seria justo ou injusto, se as pessoas entenderiam, se isso ou aquilo-outro — importava?

É que tinha conhecido o Amor. E, dessa vez, deusdocéu!, preferia que fosse diferente de como já tinham contado vida afora — o amor longe-longe, retratado, representando-se. Ou daquele jeito como se café-com- pão, café-com- pão, todo dia, perto-perto, cheio de agendas, frases feitinhas, encontros de família, só assim, também desejava nem-não.

O ideal seria encontrar uma forma nem longe nem perto demais. Jeito outro, não-ia-querer-mesmo. Porque-não- ia. Mas de repente, pum!, chegava sem avisar o Amor. E foi que: quis.
 
Maior esquisitice do mundo, cruzcredo! E coisa para médico nenhum explicar. Amava.

De primeiro percebeu que amava mais em dias específicos da semana, quando dava, claro, mas quase nunca de um dia para o outro. Era abrir os olhos de manhãzinha, querendo estar-se de abraços-com, para encontrar em lugar disso o travesseiro só seu, ali, ao léu das intenções. Quando-assim, procurava forma de não ficar com sensação negativa. E calculava-se: estava sabendo amar? Parecia tão longe ainda — o Amor…
 
Depois: os dias redemoinhavam, amava com intensidade, vontadeava mais, amar de bem-mais perto, abraçando-se, em ternuras, intimidades, e também com listas de compra, trabalhos por fazer, o que se põe à mesa em rotinas, sendo de silêncio, de barulho; tempo cozinhando, tempo remexido. Sim, aqueles momentos de caçar a fumaça dos vazios. A mochila de carregar as coisas de lado a outro, para lugar nenhum. Ia tudo indo, a vida, e as coisas, de tão perto, foram caindo na distração típica da vida que se vive sem pulsar.

Cansava-se de acreditar que era a pessoa mais importante do mundo, que isso, que aquilo. Mas assim, no concreto, pensava: E se isso for só fala, fala, falação de Amor? Sentia alegria, coração pululando, querença de estar-com, compartilhar, sonhar; às vezes também ressentia, duvidava, sentia saudade, um apertume, estranhezas, quando é que… aquela angústia nunca acabaria? Por fim, ficava de esperança, esperando.
 
Amava. Do que mais se precisaria, afinal?

De receber, um dia finalmente pensorresolutou. Porque Amor que é Amor tem que ser sem conter-se. Okay, Amor até existia, mas ainda estava de longe, era isso? Ah… bastasse, então, que… que… ligasse as matemáticas, não, não; as matemáticas, não; as geográficas fábricas de transver. Para pertoamar. Nossa, diziam tantas coisas, perturbando-se, confundindo-se, gente aconselhando, anúncios conduzindo, qual danação!
 
E foi que: decidiu fazer anúncios próprios ao Amor. Que juntassem as coisas, como sugeriam, os pratos, colheres, triunfos, quadros, papéis, canetas de imaginar, anoiteceres em penumbra de estupor ou esplendor, tudo o menos, tudo o mais, até as judiarias… Porque era para dividir até os resvalos, as impertinências, não era? Os lapsos, desfeitos, os muitos aconchegos e atrasos. Pois se era para ser assim… Mas tem-que- então que: a vida segue.

Passavam as horas. Monumentos, dias, meses, tempo-tempo. Tão logo, ali: que o silêncio contivesse palavras que explodissem. E assim teria pelo menos dito que não acreditava mais nas ladainhas contadas, nos dias que já eram de… de… Ah, mais de amizade que qualquer outra coisa. Não estava certo aquilo, estava? Não, daquele jeito não queria Amor, não. Concluía. Tinham (re)aconselhado, em contrapartida, que bobagem, que só podia isso ser besteirice, que pensasse melhor, no Amor. E enfins…
 
Ocorria então que o Amor, fim das contas, inexistia? Ou tinha só relampeado faíscas de proximidade, voltando para longe? Aquelas mesmas conversas de fila de supermercado, no trabalho, telas e outdoors, nos silêncios das matérias de jornal, ou no ruidoso das páginas dos livros. Só cenas. Era isso? Amor só fazia existência sem pertoamar?
 
Uma coisa, entretanto, era de se pressentir: abrisse a porta para que saísse, com ou sem motivo, custoso que o Amor quisesse voltar logo. Talvez nunca mais. E então, às dez e trinta e três da noite, ainda estava ali, querendo prosa, que não tinha sido nada daquilo. Explicando-se. Em querença de pertencimentos.

Que coisa… tão assim, de entra-e- sai, o Amor, né?, altopensava…
 
Pois de coerências a incoerências, com ou sem chão de miragens: que se danassem os conselhos, as (im)pertinências, os anúncios. Bom mesmo era quando ficava o Amor…
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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