Goiânia – Você já deve estar careca de saber dessa história da blogueira cubana Yoani Sánchez. Caso não, se tiver interesse, leia um pouco sobre o assunto. As opiniões são apaixonadas de todos os lados que envolve o assunto. Virou um Fla-Flu. Ame Yoani ou xingue-a muito no Twitter. As paixões deixam a razão soterrada. E as análises apresentadas são tão confiáveis quanto a de torcedores indignados com o juiz após um clássico. Uma lástima!
A real é que as percepções sobre Cuba são completamente direcionadas segundo a identificação ideológica do indivíduo. Se o cara tem uma visão de mundo de esquerda, Cuba é a encarnação do Éden na Terra. Se de direita, o Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri. Parece que é impossível reconhecer acertos e vacilos no país de Fidel Castro. Tudo é radicalizado, extremado, sem perceber as nuances de toda construção humana – e sim, Cuba é somente uma construção humana cheia de pontos positivos e negativos, não é um presente divino e nem uma penitência aos homens sem fé.
Comparar a ilha do Atlântico com, por exemplo, os países escandinavos é despropositado. A realidade cubana deve ser refletida tendo seus pares como referencial. Não reconhecer que Cuba tem índices sociais superiores aos seus vizinhos caribenhos é muita cegueira. Da mesma forma, é cabotino ignorar as sérias restrições às liberdades individuais e a recorrente violação dos direitos humanos aos quais a população cubana é desde a revolução submetida. Nem tudo ao mar e nem tudo à terra. Afinal, estamos falando de uma ilha.
Não duvido que Yoani Sánchez tenha patrocínio de entidades, países ou pessoas que discordam do regime castrista. Faz muito sentido. Afinal, ela tem legitimidade maior do que qualquer um deles para exercer a crítica. Assim como ela pode até apimentar mais o texto para agradar seus financiadores – lembrando que não tenho elemento algum para afirmar isso, pois não conheço na pele a realidade cubana, logo essa última hipótese se trata de mera ilação.
Por outro lado, não tenho também porque duvidar que grande parte do que ela escreve é verdade. O fato da liberdade de viajar ao exterior ser duramente controlado pelas autoridades é só mais um exemplo que me leva a deduzir isso. Podem existir exageros e parcialidades nos textos de Yoani? É provável. Onde isso não acontece? Tudo que ela escreve é a mais absoluta mentira induzida pela ambição de poder sem fim do Tio Sam? Hum… Não me parece verossímil.
Precisamos ser mais analíticos e menos torcedores quando o assunto é Cuba. Deixar o debate mais racional é fundamental para tentarmos entender melhor a complexidade da experiência cubana nas últimas décadas, que inegavelmente é ímpar. Destacar somente virtudes ou defeitos é prejudicial a todos. Principalmente para Cuba.