Quando o período chuvoso começou de vez em nossa capital, cheguei ao trabalho molhado três vezes. Pode até ter sido mais. Na primeira vez, pensei: “putz, preciso comprar um guarda-chuva”. Mas só pensar não fez se materializar uma proteção contra as águas que caem do céu para mim. Não mobilizei e tudo ficou como dantes.
Na segunda vez, a mesma molhadeira, o mesmo pensamento e a mesma falta de atitude. Típico. Após a terceira, bati o martelo: it’s all over now, baby blue. Não dava para esperar a quarta ocasião. Quando fui trocar os alimentos pelos ingressos do jogo do Goiás, tinha um camelô na porta da Serrinha vendendo, entre vários outros badulaques, guarda-chuvas. Não tive dúvidas e garanti o meu.
Sempre tive como estratégia, independente da época do ano, manter um guarda-chuva dentro do carro. Eu tinha um daqueles dobráveis, que ficam pequeninhos e cabem tranquilamente na mochila. O problema é que meu anterior estava muito detonado e, no primeiro pé d’água que encarei, ele me deixou na mão. Virou com o vento e me molhei mais do que seu estivesse sem nada.
Aprendi a lição: guarda-chuva dobrável nunca mais. Com isso em mente, comprei logo um daqueles pretos, grandes, longos, imponentes. Vejo-me como o Pinguim do Batman quando ando com o meu pelas ruas do Centro. Pense só se o meu também se transformasse em uma metralhadora como no vilão do gibi, pense…
Quando chove, ando orgulhoso com meu artefato. Sinto-me recompensado pelo esforço de carregar aquele trambolho tantas vezes em vão. Parece uma justiça divina. Como se uma luz descesse dos céus, me clareasse e do nada viesse uma voz timbre Cid Moreira: “Parabéns, meu filho, por ter sido precavido em tantas ocasiões. Todo seu sofrimento agora valerá à pena”.
Não adianta, você sai do cristianismo, mas o princípio do “sofra agora, goze depois” não sai de você. Acabo me achando meio superior aos que estão encharcados, esperando o sinal de pedestres ficar verde por ter pensado antes que a hipótese do temporal era plausível. Mas logo vejo a bobagem que é essa ideia.
Afinal, todos nós goianos não botamos muita fé na chuva. Acreditamos piamente que será possível chegar a nosso destino sem ser preciso carregar aquela desconfortável indumentária.
Digo isso porque é mais comum ver gente andando apressadamente tomando chuva na cabeça do que aqueles com seu guarda-chuva. É um mal do nosso povo gerado pelas características climáticas do Brasil central. Como as chuvas não são tão frequentes, vale o risco de se molhar a ter que se preocupar com o desconfortável objeto. Além disso, quantas vezes carregamos o guarda-chuva para algum lugar, não o usamos e o esquecemos em um canto qualquer? Isso é de matar!
Minha avó, paulistana de raiz, não seria pega de surpresa algum tempo atrás. Sempre andava com sua sombrinha a tiracolo. Independente do destino ou da estação. Quem nasce na terra da garoa sabe como é esse lance de chuva. O problema é que depois de tantos anos de Goiás, ela também perdeu esse hábito e hoje não leva mais seu guarda-chuva para todos os lados. As virtudes são complicadas de absorver. Por outro lado, os defeitos…
Mas eu aprendi. Não vou mais me molhar de graça. De agora em diante, guarda-chuva para cima e para baixo, em todas as épocas do ano. Pode ser na secura angustiante de agosto que lá estarei com o meu debaixo do braço. Dizem que um homem precavido vale por dois. Eu já devo estar valendo uma dúzia.