Porto Príncipe – “O que vocês foram fazer no Haiti?”. Foi a pergunta que mais ouvimos quando contamos sobre nossa experiência. É realmente verdade que não é, de forma alguma, um destino bacana para turismo. Mas também é verdade que as razões pelas quais as pessoas gostam de viajar nem sempre são as mesmas. Certamente eu e Juliano compartilhamos das mesmas de muitas pessoas.
Mas o que talvez a gente tenha e das quais poucas pessoas compartilhem é nossa disposição, curiosidade e vontade de conhecer diferentes realidades e culturas, não importa o quanto isso fuja de nosso etnocentrismo. O quanto desconfortável pode ser. O quanto esteticamente pode não ser aprazível. Que haja riscos e que não haja prazer ou descanso. E assim decidimos conhecer o Haiti: o país mais pobre das Américas.
Tomamos um ônibus – confortável – desde Santo Domingo. A miséria que veríamos nas horas seguintes começa logo na fronteira. Todo tipo de produto sendo comercializado num completo caos. Um clima de desordem e a sensação de que há poucas regras ou pouca capacidade de controlar o que se passa por aqueles limites de terras.
A fronteira reserva o contraste que rodeia toda ilha Hispânica: uma paisagem marcada por uma beleza desconcertante acolhendo uma miséria que não agrada aos olhos. Longe das praias, ali ao centro da ilha, o lago Enriquillo extenso, belo, mas cuja beleza é ignorada quando o que se importa é, de fato, comercializar aqueles produtos.
Não demorou muito, começamos a chegar em Porto-Príncipe. Começamos porque, chegar de fato em Petion-Ville, a comuna que era nosso destino final, ainda demoraria muito. A metrópole abriga sete milhões de habitantes com uma estrutura urbana absolutamente precária.
Isso significa, é claro, um trânsito completamente caótico. O ônibus demorou cerca de 2h30, três horas para conseguir entrar e sair da cidade e tomar a rodovia. Passamos por poucas avenidas. E muitas ruas sem asfalto.
Todas essas veias são disputadas por ônibus, caminhões com areia e brita, pedestres e comerciantes de rua, motos e tap-tap, o que seria o transporte público. Qualquer pick-up serve para se tornar um. Basta colocar alguns bancos na caçamba, uma proteção em cima e encher aquilo de gente.
Alguns são bem coloridos e misturam frases do tipo “Jesus vai voltar” com desenhos de mulheres semi-nuas. Entre esses transportes também se via, por hora, carros caros e chiques que nos indicam que 69% da riqueza do país está nas mãos de 2% da população.
A presença da ONU é ostensiva. Na fronteira e na entrada da cidade se faziam presentes as tropas: inclusive com exército brasileiro que pudemos identificar. Pelas ruas, dezenas de carros com a sigla “UN” e outras dezenas estampando as logos dos projetosque compõem a organização: PNUD, UNICEF, UNESCO, etc.
Conforme o ônibus avançava no trânsito caótico, diminuía nossa expectativa em relação à Petion-Ville. Imaginávamos encontrar uma região um pouco mais estruturada e menos caótica. Mas a miséria e o caos não tinham fim. Identificamos a placa de nosso hotel e saltamos do ônibus, antes de chegar à estação final. Já nas primeiras horas, dois pensamentos vieram à cabeça. 1. Isso aqui não tem jeito. Vontade de começar tudo do zero. 2. Eis, aqui, como o capitalismo deu certo.
Para conhecer a cidade, o gerente do hotel nos recomendou contratar, por um dia, um chofer. Sem glamour algum, ele era um motociclista que nos emprestaria sua garupa enquanto ele cortaria todo o trânsito de forma arriscada. O único jeito de não ficarmos o dia todo travados atrás de carros e caminhões.
Essa foi a saída: a frente David, atrás eu e Juliano, juntos, numa garupa, sem capacete: das 9h30 às 17h num clima infernal. No início isso parecia bizarro, desconfortável e achei que ia morrer a qualquer momento em um acidente. Por fim o desconforto era natural, já não temia as manobras arriscadas e estava à vontade, inclusive, para tirar foto em movimento.
Nosso primeiro destino foi o centro de Petion-Ville. Ali, sim, pudemos encontrar uma região mais estruturada e comercial. Poderia dizer que seria um centro de uma cidade brasileira de porte médio. Por outro lado, entre um prédio de escolas de línguas e um restaurante, por exemplo, um pequeno vale onde havia lixão a céu aberto com porcos.
Entre praças e bancos, havia o mesmo comércio de rua caótico presente em vários cantos da cidade. Centenas de pessoas reunidas e aglomeradas vendendo todo tipo de produto possível – de batata a escova de dentes. Todo mundo vendendo e ninguém comprando. Era essa a impressão.
As mulheres se ajeitam em cima de caixotes ou no chão e em cima de jutas colocam batatas à venda. Os homens penduram carregadores de celular ou galinhas vivas em qualquer grade ou muro que houve por perto. É no caos do comércio informal que a população, metade analfabeta, encontra uma forma de não morrer de fome (literalmente).
Era um feriado, que só pôde ser percebido por nós porque os bancos estavam fechados e na praça havia vários jovens jogando basquete em pleno horário comercial. Fora isso, não seria possível imaginar que não era um dia útil. O que diz muito sobre o país: o emprego informal reina. Dois terços da população são de desempregados. Eles, literalmente, se viram para tocar a vida.
Se em Petion-Ville já pudemos ver mais de perto o caos da falta de urbanismo, de empregos formais e dessa busca por sobrevivência onde todos tentam vender qualquer coisa, tudo se agravou quando chegamos ao Mercado Público. O mesmo que há mais de 200 anos servia para se comercializar escravos.
Entramos numa avenida mais ou menos larga (comparada com as que tínhamos percorrido) onde havia de um lado, e de outro, grandes prédios coloniais. Todos atingidos pelo terremoto e desmoronados. Diariamente, 200 mil pessoas se viram vendendo de chinelos a galinhas. Tudo ao mesmo tempo. Em frente aos prédios caídos. Ao lado de porcos comendo lixo. Em cima de esgoto a céu aberto. E sob um céu insistentemente azul. Uma cena forte.
É ali que os dados se tornam reais. É onde enxergamos o país que ainda sofre com cólera porque não há saneamento básico e urbanismo. A nação cuja 80% da população está abaixo da linha da pobreza. Foi nesse lugar que a cabeça deu um nó.
E aí, ao ver aquela miséria espalhada por todo canto, a gente se pergunta: “que desgraça aconteceu de lá para cá?”.
Haiti é o país que, quando colônia francesa, era chamado de “jóia das Antilhas”. Tinha uma produção tão ostensiva de açúcar, tabaco, e algodão que chegava a totalizar metade do PIB da França. Tão explorado e devastado, hoje a economia é baseada, essencialmente, na agricultura familiar: banana, açúcar, café, etc.
Desde o terremoto, em 2010, a emigração de haitianos é crescente. São eles que ajudam a economia do país girar ao enviar dinheiro para suas família – o que também é percebido pelo enorme número de agências Western Union, que permitem essas transações.
A natureza não ajuda a tirar o país da miséria. O Haiti se tornou essa parte da ilha Hispânica cuja natureza foi avassaladoramente devastada graças à colonização e hoje a população recebe a fúria de volta. A devastação provocou erosões que colocam a agricultura permanentemente em risco e também provoca inundações trazendo sempre prejuízos e danos enormes à população.
Politicamente, a história do Haiti é marcada por brilho logo no início com a abolição dos escravos e independência, mas que não permaneceu com o passar do tempo. A nação era considerada subversiva pelas potências coloniais e sofreu diversos boicotes. Ademais, teve de pagar uma espécie de indenização aos ex-proprietários de terra e de escravos franceses. Uma dívida que só pôde ser quitada já em 1922. Por fim, a história do Haiti é marcada por consecutivos governos ditatoriais e corruptos, além de invasões norte-americanas.
A história política e a fúria da natureza colocam esse país de gente forte e de história admirável na colocação de mais pobre da América Latina. O que tenho certeza é de que esse povo não vai conseguir se reerguer sozinho. É necessário e urgente que as nações olhem e façam mais pelo Haiti. Porque quando você achar que estamos na miséria, tenha certeza de que o Haiti não é aqui. Pense no Haiti. Reze pelo Haiti.