Goiânia – O estúdio britânico Hammer Films ocupa o pódio absoluto de minhas idiossincrasias cinematográficas. Amo tudo – tudo mesmo! – que leva sua emblemática assinatura. Nem de longe tais filmes podem ser considerados os melhores ou mais relevantes já produzidos na cinematografia mundial. Mas seus vampiros, múmias e monstros salvaram muitas madrugadas televisivas ao longo de minha infância e adolescência, nos anos 70 e 80 do século passado. De modo que afeto é o que fala mais alto por aqui.
Fundada em 1934, a coisa só decolou mesmo para a Hammer em meados da década de 50. Àquela altura, os filmes de terror em preto e branco da Universal Studios já ultrapassavam 20 anos de existência, de modo que seus Dráculas, Frankensteins e Lobisomens não assustavam mais ninguém – ainda que estivessem progressivamente se convertendo em clássicos. Foi aí que veio o estalo de genialidade: apresentar – virtualmente pela primeira vez – os velhos monstros em cores, com sangue vermelho correndo aos borbotões. E adicionar generosas doses de sensualidade. Era um novo cinema de horror. Ganhou o mundo.
Sem entrar em controvérsias, o marco zero desta nova fase aconteceu com A Maldição de Frankenstein, de 1957. Já estavam ali sumarizadas as características essenciais de um filme da Hammer: excelentes atores – no caso, a imortal dupla Peter Cushing e Christopher Lee, fácil fácil meus preferidos de todos os tempos –, roteiros engenhosos que nem por um minuto se preocupavam em seguir os originais literários, direção classuda – sendo o mestre Terence Fisher seu maior nome –, atmosfera gótico/kitsch, cores vívidas e pulsantes. No ano seguinte foi a vez de Horror of Dracula (O Vampiro da Noite, no Brasil), com Cristopher Lee entregando a encarnação definitiva do conde da Transilvânia – na minha opinião, ainda mais emblemático que o grande Bela Lugosi. Daí para frente, sucesso atrás de sucesso.
Os filmes de terror da Hammer jamais gozaram de orçamentos hollywoodianos – e tampouco passaram perto de ser trash. Os limites financeiros obrigavam as películas a apostarem em direção inteligente, grandes atuações, roteiros vertiginosos, soluções criativas… e alguma apelação, claro. Sangue e erotismo mostraram-se uma combinação explosiva, que carregou a produtora nos ombros até o final dos anos 1960. Com o desgaste natural da fórmula, a década seguinte assistiu o estúdio inglês investir em filmes cada vez mais bizarros e apelativos. Exploitation é o nome.
Dr. Jekyll and Sister Hyde (que por aqui recebeu o pouco inspirado título O Médico e a Irmã Monstro), faz parte desta leva. Lançado em 1971, o filme contou com a cuidadosa direção do veterano Roy Ward Baker. As ausências de Christopher Lee e Peter Cushing são dirimidas pelas deliciosas atuações de Ralph Bates e Martine Beswick. E o roteiro de Brian Clemens, então consagrado com o sucesso televisivo da série The Avengers – esquece a Marvel só por um segundo, meu filho –, é dos mais insólitos, intrigantes e divertidos.
Em uma Londres vitoriana, o obstinado Dr. Jekyll busca a cura de todos os males e a fórmula da vida eterna. Suas pesquisas o conduzem a uma inusitada descoberta: é nos hormônios femininos que provavelmente resida tal panaceia. Afinal de contas, mulheres vivem mais, têm a pele sempre lisa e raramente perdem os cabelos.
Para conseguir os tais hormônios femininos, o (até então) bom doutor recorre ao sombrio funcionário do morgue – que oferece pistas claras de ser um devotado praticante de necrofilia. Com a escassez de matéria-prima para sua investigação científica, Jekyll se vê diante de um dilema moral: de que vale um punhado de vidas diante da promessa de uma era de glórias para a humanidade? A partir daí, passa a contar com os serviços dos lendários assassinos e profanadores de túmulos William Burke e William Hare. Como isso também não é suficiente, Jekyll se transforma, ele mesmo, em Jack, o Estripador. Achou pouco? O melhor estar por vir.
Chega então o momento em que o Dr. Jekyll testa em si próprio o soro desenvolvido. O resultado é ainda mais assombroso que a criação original de Robert Louis Stevenson. Ao invés de se transmutar em um homem monstruoso, selvagem e amoral, termina por assumir a forma de uma lindíssima e sedutora mulher. A tal Irmã Hyde.
Apesar das tintas mirabolantes do roteiro, O Médico e a Irmã Monstro não entrega apenas humor negro e terror clássico. Sob a batuta de Ward Baker, temos instigantes questões que vêm à tona com força e estilo. Algumas cenas são verdadeiramente surpreendentes.
Em sua primeira transformação, há um explícito prazer em Hyde se descobrir mulher. Ela se toca com curiosidade, enquanto a metamorfose começa a se reverter. Neste momento de ambiguidade, uma de suas mãos – já masculina e coberta por pelos – acaricia o restante do corpo, ainda feminino.
No decorrer da trama, aprofunda-se o embate entre Jekyll e Hyde – e, por tabela, entre homem e mulher –, na disputa pela posse da consciência (e do corpo!). Espelhos cumprem papel determinante nestas sequências. À medida em que o que estava reprimido vem à superfície, encarar a si próprio torna-se algo insuportável.
É impressionante notar como este velho filme da Hammer se atualiza de forma vigorosa diante do atual panorama brasileiro. Se lembrarmos que foi produzido há quase meio século, a coisa fica ainda mais assustadora. As similaridades são muitas, mas dizem respeito principalmente às questões de gênero. A homofobia e misoginia, defendidas tão ferrenhamente pelo presidente e sua ministra Damares, parecem ter na película uma acurada alegoria. O clímax do filme, inclusive, se passa numa belíssima cena envolvendo translúcidas janelas de vidro rosa e azul – cores que parecem bastante caras à mulher da goiabeira.
Se o cerne do romance de R. L. Stevenson era a luta do homem civilizado para conter a selvageria primitiva que todos trazem dentro de si, em O Médico e a Irmão Monstro, o que o Dr. Jekyll procura é justamente obliterar uma sexualidade que, apesar de não reconhecer, está lá, esperando apenas uma oportunidade para desabrochar. Impossível – ao menos para mim – evitar paralelos com o colostomizado e sua assecla responsável pela pasta dos Direitos Humanos. A diferença é que, enquanto o filme da Hammer se mostra uma inventiva – e até mesmo sofisticada – obra do cinema de horror, o que a turma de Brasília tem nos oferecido é uma pastiche trash do mais baixo calão. Daí nossos frequentes pesadelos.
P.S. 1: O Médico e a Irmã Monstro faz parte do 8º volume da excelente coleção de DVDs Obras-Primas do Terror, lançada pela Versátil Home Video. Recomendo fortemente a coleção como um todo.
P.S. 2: Convido a todos os leitores do Guerrilha Pop a comparecerem à Vila Cultural Cora Coralina neste sábado e domingo (dias 09 e 10 de fevereiro), quando acontece a E-cêntrica – feira nacional de publicações independentes. Estarei por lá com todo o catálogo da minha pequena editora, a MMarte.