Goiânia – Nos últimos dias li excelentes textos sobre o “rolezinho” e alguns comentários que me assustaram também. De um lado, assino embaixo dos artigos que elucidam como esse fenômeno explicita o apartheid simbólico brasileiro. De outro, me impressiona a ideia consolidada de alguns brasileiros de que cada um tem seu lugar. Reproduz-se, quase 125 anos depois, a senzala e a casa-grande. Ou, cada um tem seu lugar. Ou, se for para um estar no lugar do outro, que saiba se comportar.
Um, dois, três pobres juntos no shopping, tudo bem. Em grupo maior, problema. A verdade é que um bando de pobres no shopping (negros, em sua maioria), mesmo sem fazer nada, incomoda. Daí encontrar qualquer detalhe para chamar o rolê de baderna é um pulo.
O que ocorre é que não consigo enxergar muita nobreza pela disputa de um espaço privado. Pela luta por um aparecer que diz respeito a qual etiqueta carrega na calça ou qual bebida alcóolica compra na balada.
Em um contexto onde todos nascem como consumidores e muito menos como cidadãos, nem coloco em xeque aqui o “direito” de cada um poder estar em um centro de compras. Nem que seja para olhar vitrine.
O que o rolezinho mostra é uma fragilidade política que vai além: hoje, aparecer e ser reconhecido socialmente implicam em consumir. O quanto pode pagar, o quanto é bem aceito por isso e todos os valores simbólicos que giram em torno disso. O que eles parecem querer dizer é: nós também queremos consumir. Assim, não é uma crítica ao consumo, diferente do que os black blocks parecem defender, ao atacar, com preferência, os bancos.
Há pouco tempo goianienses foram ao Shopping Flamboyant contestar o aumento da tarifa de estacionamento. Pouco tempo depois, um rolezinho também é agendado no mesmo espaço. Nada mais simbólico do que um centro de compras como arena da disputa política. Os recentes fatos deixam claro: o consumo se tornou a principal preocupação política, no sentido de organização da população em torno de uma causa.
Não há que se negar a diminuição da miséria com a crescente capacidade de consumo do brasileiro. A ampliação dessa capacidade acabou por incluir, quem antes era excluído, em algumas outras esferas e espaços.
Também não é de se desprezar o recorrente repúdio da classe média e de uma velha elite que se recusam a compartilhar os mesmos espaços com quem acabou de chegar. Aqui, levo em conta, por exemplo, as cotas nas universidades públicas. Há quem não engula o fato de que o filho da empregada e o da patroa podem estar na mesma sala de aula. Quanto mais se a sala for de medicina ou de direito.
Também irrita o fato de o aeroporto estar cheio de gente que agora pode pagar por passagens. Seja parcelando em 10 vezes ou usando as milhas acumuladas pelos pontos do cartão de crédito (diga-se de passagem, a maior razão de endividamento do brasileiro).
Até hoje (e por muito tempo, prevejo) há quem esteja batendo o pé indignado com a nova lei que dá à empregada doméstica os mesmos direitos de qualquer trabalhador. Ter de pagar por tantos benefícios a quem oferece serviços braçais (que outrora eram feitos por escravos) é demais para quem ralou tanto para subir na vida e ter um diploma.
Mas a realidade é que o Brasil ainda é pobre. Como divulgado em uma coluna hoje na Folha, 66% das famílias brasileiras ganham até R$2034,00 por mês. Entre o crescimento de um lado e um ranço em aceitar o crescimento de outro, há o que os pobres, a classe média e, em alguns casos, os rico convergem: a (limitada) capacidade de consumo não tem resolvido certos problemas em comum. Mobilidade e segurança pública, talvez, atinjam todos eles.
Dez anos depois, o brasileiro que acabou de ascender descobriu que ter TV de plasma em casa não dá acesso cultural. Ter smartphone e infinda possibilidade de comunicação não dá voz nenhuma a ele. Carro com IPI reduzido não resolve problema de mobilidade. Vaga na universidade (que ainda está longe de ser universal) não tem dado garantia de um mercado de trabalho de braços abertos. Capacidade de consumo não implica em reconhecimento como cidadão.
Não foi à toa que as manifestações juninas eclodiram com protesto por aumento de tarifa de passagem de ônibus. Também não deve ser coincidência que na boca do povo na rua as reclamações sobre a vida na grande cidade giram em torno de saúde, educação, transporte e segurança pública.
Se há um ato de resistência nos rolezinhos, é que a periferia tem mostrado sua capacidade de se organizar e de ousar ser ouvida. De contestar a desigualdade. De mostrar empoderamento. Há muito o que tentarmos compreender no que acontece aqui e desde junho do ano passado. Mas não me entusiasmo em encontrar sentido político na capacidade de poder comprar óculos Oakley e comprar com cartão de crédito na Zara.
A nobreza da apropriação do shopping está no enfrentamento de quem engole calado, há muito tempo, as mazelas da periferia. Na denúncia de um apartheid sutil e dolorido brasileiro. Mas o objeto de apropriação, o consumo, não é motivo de nobreza. A verdade é que nenhum dos problemas, que assombram todos, vai ser resolvido com o direito pleno de todos consumirem e frequentarem os shoppings.
Há meios de comunicação públicos, que dão voz a muitos poucos, a serem apropriados. Há espaços de educação a serem ocupados. Espaços culturais às moscas sem provocar nenhuma inclusão. Há, inclusive, um congresso nacional, assembleias e câmaras prontas para receberem um rolezinho e mostrar quem é que manda nessa democracia.