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O Mundo é o Culpado

05.03.2018 - 09:08:00
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Goiânia – Os sonhos desfeitos e a condição de penúria pela qual uma mulher é sujeita após um duro golpe são condicionantes que movem O Mundo é Culpado (1950), provavelmente o grande filme de Ida Lupino, uma das maiores, se não a maior diretora que o cinema revelou. De uma filmografia reduzida, mas de uma força descomunal, a relevância de sua obra é sem precedentes na história cinematográfica, tanto como atriz, e, fundamentalmente, como diretora, visto que atingiu uma maturidade esplendorosa logo no princípio de seu ofício. Na película mencionada, a personagem Ann Walton (Mala Powers), no auge de sua jovialidade e beleza, tem, abruptamente, sua vida descarrilhada após um ato de violência impensada, mas que se alastra pelos tempos atuais.
 
Ann trabalha como contabilista e irradia uma felicidade em cada expressão e gesto, principalmente por ter encontrado o amor e se tornado noiva. Todavia a alegria é aniquilada por um ato inominável pelo dono de uma lanchonete próximo ao seu local de trabalho. Ann frequentemente sofria assédio por este senhor e numa determinada noite, ao retornar à sua casa depois de uma longa jornada de serviço, o assédio descamba para as vias de fato, e o estupro é consumado. Ida Lupino se destaca como uma diretora de primeira grandeza na construção desta cena em que o ato não é mostrado, mas a sua sugestão por meio de uma câmera subjetiva – Hitchcock faria semelhante em Frenezi (1972) – e o som irritante de uma buzina que não cessa é conduzida magistralmente.
 
Posteriormente a este lamentável evento, Ann tenta voltar à sua rotina, mas as consequências da violência pela qual foi vitimada insiste em vir à tona, seja pela forma com que as pessoas a olham nas ruas, ou mesmo pelo ruído estridente emitido pelo carimbo constante em seu ofício que nos insere naquele burburinho mental vivenciado pela personagem. A película é muito bem dirigida e promove uma mise-en-scène rara, sobretudo para uma diretora com pouco tempo de estrada. 
 
Ao não se readequar à sua condição rotineira, e não conseguir se envolver com Jim (Robert Clarke), seu noivo, mesmo que ele insista para que o fato ocorrido seja olvidado e que eles se unam em matrimônio, Ann parte à deriva, vagando pela estrada, imersa em seus pensamentos, até que de tão fatigada tanto mentalmente, quanto pelo seu esforço físico, torce o pé e desmaia pelo caminho. O reverendo Bruce (Tod Andrews) a encontra e a conduz a uma casa de uma família que concede a ela um abrigo. Uma amizade bela irrompe entre os dois e Bruce tenta desvendar o passado misterioso daquela bela garota à medida que a ajuda em sua recuperação. 
 
Ida Lupino volta seu olhar aos desamparados, às mulheres vítimas de uma barbaridade masculina, uma semelhança notável com a obra do genial Kenji Mizoguchi, além de outros pontos de contato com a estética do diretor japonês, reverberando a fragilidade da condição feminina – o mundo está de cabeça para baixo é o que afirma a personagem de Ann – com um toque peculiar que a insere no panteão dos grandes cineastas da história.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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