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O nó e o laço

10.09.2012 - 09:02:55
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Goiânia – Semana passada encontrei por acaso com uma amiga assistente social, que eu não via há tempos. “Quase te liguei para comentar. Você viu que mais dois bebês recém-nascidos foram abandonados em Goiânia?”, disse ela, fazendo referência ao fato amplamente noticiado pelos meios de comunicação nos últimos dias.
 
Sim, eu vi. Como quase todo mundo, fiquei chocada, comovida e intrigada – como uma mãe pode abandonar o próprio filho, totalmente indefeso, no meio da rua? Perguntei à minha amiga se ela também tinha a impressão de que o abandono de bebês havia crescido ultimamente, na capital, e a resposta foi afirmativa.
 
“É claro que aumentou. Acho que nunca tantas mães abandonaram seus recém-nascidos. Penso que isso acontece um pouco pela epidemia de crack, um pouco pelo fato de muitos homens deixarem a mulher quando sabem que ela engravida, mas não posso arriscar uma ou duas razões específicas. É complexo demais”, explicou ela.
 
Concordo. Julgamentos apressados não dão conta de determinar a causa de algo assim tão delicado. “Mas quando disse que quase te liguei, é porque esse abandono me fez lembrar aquela sua matéria sobre as crianças nos abrigos. As pessoas não sabem que o drama dos pequenos está apenas começando”, recordou ela.
 
É claro, a reportagem sobre as crianças no abrigo… Meu Deus, isso foi há tantos anos! Eu não havia me formado em Jornalismo ainda, mas já fazia trabalhos para uma pequena revista. Recebi do editor a missão de abordar a questão da adoção consciente, mostrando a realidade de um abrigo para menores abandonados.
 
Como o Natal se aproximava, muitos casais interessados em adotar crianças faziam uma espécie de teste com os menores. Levavam a criança para casa, passavam o Natal com ela e, se tudo corresse bem, poderiam então pensar na possibilidade de ficar com ela definitivamente. 
 
Foi essa minha amiga assistente social quem me ajudou a encontrar um abrigo para a matéria. Lá eu pude conhecer histórias como a dos irmãos Maristela e Robson, na época com 7 e 4 anos, respectivamente. Ambos haviam passado um Natal com uma família, foram adotados, mas a experiência não deu certo e eles voltaram à instituição.
 
A mãe adotiva de Maristela e Robson não conseguia ter filhos. Depois de adotar os dois, engravidou de gêmeos. Quando os bebês nasceram, alegou que não era possível manter quatro crianças em casa e que os maiores não mostravam afetividade pelos menores. Maristela e Robson tiveram de retornar ao abrigo.
 
Maristela era franzina, quietinha e tinha um olhar muito triste. Não conseguia aceitar o fato da mãe adotiva ter lhe devolvido. “Tia, eu era obediente. Juro que nunca tirei nada do lugar. Eu não precisava ter um quarto só pra mim, poderia dormir no quarto dos bebês, num colchão no chão, junto com meu irmão”, justificava.
 
Para Robson o afastamento foi ainda mais doloroso. Como ainda era muito pequeno e não conseguia entender a situação, procurava o tempo todo pela mãe adotiva, com quem ficou durante um ano e meio e desenvolveu uma forte relação afetiva. Chorava muito, não queria comer nem brincar com os amigos do abrigo.
 
Daniel, com 9 anos na  época, passou pelo mesmo problema. Assim como Maristela e Robson, também não possuía o perfil mais procurado pelos pais adotivos (recém-nascidos e brancos, ou meninas com até 3 anos de idade). Daniel era negro, foi abandonado pela mãe com 2 anos e tinha energia de sobra.
Ele passou o Natal com um casal, por quem foi adotado em seguida. Mas a vida em família durou apenas um ano. O pai adotivo recebeu uma proposta de emprego no Canadá e decidiu que permanecer com Daniel não era boa ideia, pois o garoto dava muito trabalho e a adaptação ao novo país seria ainda mais difícil com ele.
 
Aparentemente, Daniel não demonstrava grande tristeza em relação ao fato. Entretanto, numa conversa despretensiosa comigo, a rejeição veio à tona. “Tia, você é muito legal. Mas não vou pedir pra você me levar pra sua casa, porque eu não sou um bom menino e você não vai me aguentar, vai querer me devolver”, alegou.  
 
Sempre acreditei na ideia de que o amor entre pais e filhos é inato e inabalável, um nó indissolúvel. Que basta que uma criança nasça, para que seus a amem incondicionalmente. Porém, quando uma mãe deixa seu filho ao relento ou quando um pai é processado por abandono afetivo, minha crença cai por terra.
 
Desconfio que, em alguns casos, o amor dos pais por seus filhos talvez não seja um nó natural, mas um laço construído pouco a pouco — às vezes com mais força e vigor, às vezes com mais frouxidão, de acordo com o comprometimento e a disposição de dar afeto daqueles que dizem pretender construir uma família. 
 
Certeza eu não tenho de quase nada nessa vida. Uma das poucas que cultivo é a de que filho é coisa muito séria. Um pai ou uma mãe podem não se lembrar de que colocaram alguém no mundo, mas dificilmente uma criança esquecerá que não teve seus pais por perto, ou que os teve por apenas breves instantes. 
 
As (in) conveniências da vida adulta podem levar à construção de laços muito precários entre pais e filhos. Num dado momento, os pais querem muito aquela criança, chegam até a sonhar com ela. Depois de alguns tormentos, a vontade passa e o jeito é devolvê-la para um abrigo ou abandoná-la nas ruas. 
 
Porém, uma vez envolta nesse laço, a criança estará para sempre presa de alguma forma ao adulto que se colocou na posição de pai. Ressentimento, complexo de rejeição e dificuldade de confiar no outro são alguns dos sentimentos que ela poderá carregar por toda a vida. Eis aí um nó difícil de desatar.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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