Ele caminhou do meio de campo até a marca de pênalti com firmeza. Seu rosto esbanjava convicção, determinação e certeza. Era um líder nato daquele grupo comandado por Telê Santana. Ele iria bater o primeiro da série de cinco penalidades para decidir o jogo mais emocionante da Copa do Mundo de 1986. Ele pegou a bola com frieza. Olhou para o arqueiro francês Bats. Poucos passos o separavam da bola. O goleiro deles já havia defendido um pênalti no tempo regulamentar cobrado por, veja só você, Zico. Ele deu três passos a frente, chutou no canto direito do gol e… Putz…
O jogo havia sido sofrido. O Brasil saiu na frente com um gol do Careca após uma bela tabela entre Júnior e Müller, na qual o ídolo flamenguista achou o centroavante do Morumbi sozinho na área. Michel Platini empatou a partida no final do primeiro tempo, ao receber livre na pequena área uma bola cruzada da direita. O segundo tempo foi emocionante, com vários gols perdidos dos dois lados. O Brasil metia bola na trave, a França perdia gol feito na cara do goleiro brasileiro Carlos. Eu estava elétrico, nervoso, bebendo um copo de refrigerante atrás do outro. Toda família na sala. Eu sentado no chão. Comecei a chorar quando o Zico perdeu o pênalti e não parei mais até horas depois do último pênalti francês despedaçar o sonho do tetra no México.
Sócrates era um cara que eu respeitava. Sabia que ele era o complemento do Zico na parte de criação da Seleção Brasileira. Mas não tive a mesma complacência com ele do que tive com o ídolo flamenguista quando perdeu o pênalti. Zico era meu ídolo, Zico estava frio no jogo, Zico estava no sacrifício vindo de contusão, Zico era o Zico, pô. Quando Bats espalmou o pênalti do Doutor com a mão trocada naquela decisão, eu o amaldiçoei. Me pareceu displicência. Me pareceu relapso da parte do jogador corintiano que era ídolo do meu primo alvinegro, que ainda não era do bando de loucos.
O camisa 8 nos deixou na madrugada do domingo, no dia em que o Corinthians comemorou algumas horas depois seu merecido pentacampeonato brasileiro. Antes do jogo, no minuto de silêncio, os jogadores do Parque São Jorge ergueram o punho cerrado para homenagear o Magrão. A torcida corintiana nas arquibancadas do Pacaembu seguiu e também fez o gesto que marcou a forma do craque comemorar seus gols. Os jogadores do Palmeiras, estupidamente, não seguiram o fluxo. Uma bobagem não homenagear alguém que extrapolou um time e se transformou em ícone nacional.
Fica a saudade de um cara que marcou por mostrar que jogador de futebol poderia ser um agente político de transformação sem deixar de ser craque dentro de campo. Alguém que sempre foi inteligente, requintado, elegante e nunca deixou de ser respeitado pelo belo futebol apresentado. Em tempos de volantes brucutus, futebol de eficiência e senso comum nas declarações dos jogadores, lembrar que um dia tivemos Sócrates como referência é um alento.
Hoje vejo que foi infantilidade ter ficado puto com aquele pênalti perdido por Sócrates. Ele bateu bem, mas o goleiro caiu direitinho na bola. Além disso, ouvi uma frase uma vez sobre a Seleção de 1982 (base da de 1986) que concordo inteiramente: se aquele time não ganhou a Copa, azar o da Copa. Assino embaixo! E Sócrates, como capitão do escrete de 1982, merece todas homenagens.
Doutor, valeu por tudo!