Nada é mais traiçoeiro que a memória afetiva. Ela nos prega peças diárias e nos faz passar vergonhas que não estamos acostumados a encarar. Quando você age calcado na memória afetiva, vai com aquela expectativa, faz um baita comercial aos amigos, cria todo um clima e, na hora H, pimba!: não era nada daquilo como você se lembrava. Ou seja, você foi mais uma vítima da memória afetiva e será ridicularizado por todos nos próximos anos. Dica de brother: nunca confie em sua memória afetiva.
Se você não entende o significado do termo memória afetiva, explico agora com todo prazer, caro leitor! São aquelas lembranças que você tem dos bons tempos da infância. Tipo um quintal enorme da casa de seus avós em que você brincava, um doce que sua mãe lhe levava para comer em uma cidadezinha do interior, o bolinho de carne que sua avó fazia em dias especiais, a diversão de um dia no córrego de uma chácara… Enfim, são recordações nostálgicas e cheias de afeto que todos guardamos dos bons momentos da vida.
Ter essas vivências emolduradas com os mais belos sentimentos é corretíssimo. O problema é quando decidimos revivê-las. Aí mora o perigo. Provavelmente, o quintal em que você brincava não era tão enorme quanto sua memória guarda, o doce que sua mãe lhe dava não passa de uma paçoquinha vagabunda de esquina, o bolinho de carne da sua avó foi superado por aquele que você aprendeu fazer e o córrego onde você se divertia se trata de um filete d'água que não dá nem para molhar o joelho. Todos os mitos são destruídos em frações de segundo.
Aí bate a crise no indivíduo, pois percebe que todas suas referências sentimentais, na verdade, não são tão majestosas ou grandiosas quanto se aparentavam. E isso é completamente normal. Não há nada para se preocupar. Quando somos crianças, estamos naquela fase de descobertas onde um admirável mundo novo se abre a cada dia. Então, a pastelaria da esquina é a melhor pastelaria do mundo – afinal, você só conhece aquela. O quintal da vovó é o maior do mundo – afinal, você só conhece aquele. E assim por diante.
Não podemos exigir que tenhamos o mesmo encantamento de nossas experiências da infância décadas depois. O acumulado de referências que temos ao viver nos impede aquele deslumbramento pueril. E quando exigimos isso de uma vivência calcada na memória afetiva, a decepção é mais certa do que a chuva nesses dias de outubro em Goiânia.
Tento manter com todo carinho as coisas que vivi no lugar onde elas são mais legais: na minha cambaleada memória. Qualquer tentativa de revivê-las vai quebrar um mito que é caríssimo para mim e, sinceramente, não quero correr esse risco. Memória afetiva é bom demais. Desde que permaneça na memória. Com todo o afeto do mundo.