Não minta para mim, revire o seu âmago, aprofunde naquele ponto de seu ser que você tem vergonha da existência mas você sabe que ele está lá, chegue ao seu verdadeiro eu sem maquiagem e sem falseio. Depois desse processo dolorido e incômodo, me responda: qual seu pior preconceito? Repito: não minta. Você é preconceituoso, você traça comportamentos que só existem na sua cabeça por conta de roupas, orientação sexual, etnia e tudo mais que sua construção cultural lhe proporcionou. Você sabe que pode estar errado, você já quebrou a cara várias vezes e foi surpreendido por pessoas completamente diferentes daquilo que seu arquétipo preconceituoso montou, mas você não consegue se livrar. Esse é o preconceito nosso de cada dia.
Um amigo uma vez me disse: “Cara, desculpe a sinceridade, mas eu preciso lhe dizer que nunca gostei de tatuagem. Para mim, sempre foi gente sem compromisso. Ou um burguesinho que o pai paga as contas, ou um completo porra louca que não está nem aí para nada. Depois que lhe conheci, toda vez que tenho que me relacionar com alguém que tenha tatuagem e esse preconceito aparece, me lembro de você para tentar mudar essa forma de pensar. Mas é difícil”. Não tenho dúvidas que alterar algo tão arraigado é complicadíssimo. Mas não é impossível. O desafio é criar terreno e espaço para que a razão se imponha e a coisa seja corrigida.
Eu preciso assumir também meus preconceitos aqui. Eu tenho restrições a playboy. Playboy, para mim, só salva a revista. Quando vejo o cara bombadão, com aquele óculos de marca e absurdamente brega, carro com vidros escuros, som alto e desagradável… Sério, não espero nada dele. Nem bom dia. O mais completo desprezo pelo indivíduo preenche cada espacinho da minha alma para ignorá-lo o máximo possível. Mas nem sempre consigo. Começo implicar com tudo que o cara faz. Se ele pede algo para comer, já penso: “- Tinha que ser comida de playboy mesmo!”. Se o cara usa determinado tipo de gíria, já emendo: “- Gíria de playboy”. Ou seja, para o cara mostrar seu valor, ele terá que provar duas vezes ser alguém gente boa. Se provar uma única vez já não é tarefa simples, imagine duas… Logo, o meu preconceito de cada dia simplesmente me impede de ter algum tipo de relacionamento com quem eu pressuponho ser playboy.
Mesmo consciente do equívoco que é prejulgar dessa forma, vai convencer esse maldito preconceito… E a questão se agrava ainda mais quando o estereótipo do playboy é confirmado com ações de playboy. O preconceito estufa o peito e grita com toda a força para a razão: “FICA NA SUA! VIU COMO EU ESTAVA CERTO?”. E a razão tenta juntar forças para recomeçar a inglória batalha de tentar quebrar esse preconceito com argumentos. Como disse, missão complicada…
E você, leitor? Qual o seu preconceito de cada dia?