Goiânia – Ontem levamos minha filha mais nova no seu primeiro dia de escola. Toda bonitinha com o uniforme pela primeira vez, minha mulher a deixou na sala com a professora e a monitora no meio daquele caos: molecada chorando e pedindo pela mãe dentro da sala, mão chorando de fora ao ver que seu filhote agora será também do mundo.
Impossível não me recordar do meu primeiro dia de escola. Essa é uma de minhas lembranças mais remotas, junto de outras que vêm misturadas à mente. Comecei no Jardim 1 do Colégio Agostiniano em 1983, quando eu tinha de 4 para 5 anos. Aquela sala de aula cheia de gente que eu não conhecia, a obrigatoriedade de ficar sentado naquela cadeirinha específica, minha comida naquela caixinha que me disseram que se chamava lancheira… Eu abri o maior berreiro.
Grudei nas pernas de minha mãe, depois do meu avô. Meu olhar para eles era cheio de decepção: por que vocês estão me deixando aqui? Por que vocês estão fazendo isso comigo? O que eu fiz para merecer isso? E não adiantava as promessas, as ameaças, as tentativas de me convencer a ficar quietinho. Aquilo para mim era traição. E minha arma contra a traição era chorar e gritar aos quatro mundos com toda minha força.
É claro que eu não era o único a dar esse espetáculo. Inclusive, acredito que o choro de um influencia o do outro nesse momento, praticamente um rito coletivo de rompimento do cordão umbilical. Não tenho uma boa noção de tempo, mas a impressão que eu tinha era que nunca mais chegaria a hora deles me buscarem daquele lugar esquisito.
Ontem foi o dia de reviver esse marco na história pessoal de todos, agora novamente do outro lado do balcão. Como a minha caçula já ia para o berçário, ela não teve grande dificuldade de adaptação nesse novo ambiente. Ela já está acostumada com muita criança em volta, brincar no coletivo, obedecer aquela autoridade adulta que ela não conhece direito.
E hoje as escolas têm técnicas de adaptação que são mais bem pensadas do que aquelas que vivi. O horário de permanência na escola vai crescendo progressivamente, pai e mãe podem passar pela escola para dar um olá. Acho que a pressão nas costas da criança não é jogada tão de imediato como era no passado.
O que mais me impressionou foi a calma de uma garotinha que, no meio daquela balbúrdia, virou-se para um coleguinha que abria o maior berreiro e perguntou:
– Por que você está chorando? Por que você não para de chorar e vem brincar?
Tão doce, tão inocente, tão infantil. Tenho certeza que ela também é oriunda de berçário para ter tamanha naturalidade em momento tão traumático.
Não tem um único momento que uma criança não tem cartas na manga para lhe surpreender.