Goiânia – O que 2019 espera de nós? A primeira grande mudança de paradigmas Estamos no dia mais curto do ano, o dia em que na Itália, onde começa a nossa história a escuridão da noite prevalece e o dia está mais curto. Talvez, por isso, foi neste dia que Galileu Galilei escreveu a sua famosa carta a Benedetto Castelli, em 1613. Carta na qual expõe, com raciocínio quase irrefutável que a Terra circunda o Sol e não vice-versa.
Na carta afirma que as Escrituras Sagradas jamais poderiam estar erradas, mas “alguns de seus intérpretes ou expositores podem por vezes errar de inúmeras maneiras”, quando focam especialmente no limitado “sentido literal das palavras”. Atitude que, segundo Galileu, levaria ao afastamento da verdade. E, como bem afirma, “duas verdades jamais se podem contradizer”.
Deus jamais teria nos concedido sentidos, linguagem e intelecto — afirma o astrônomo — para depois nos mandar ignorá-los dando-nos outra informação nas Escrituras. De alguma forma, afirma Galileu, as Escrituras e a Ciência teriam como se relacionar!
Com esta carta começou a revolução! O modelo geocêntrico começou a ser duvidado por muitos, abrindo as portas para o heliocêntrico. Isso porque a ideia que Galileu queria espalhar era, na verdade, a articulação possível de ciência e religião. A meta da ciência é o bem-estar.
A meta da religião é a salvação. Já os resultados conseguidos são outra coisa! Ainda que religião possa não buscar o bem-estar, pode ser que ela ajude através de seus princípios — este pode ser um de seus resultados. A ciência, por sua vez, é muitas vezes a responsável por muitos se aproximarem de sua dimensão espiritual, seja pela exposição da perfeição das leis naturais, através da meditação, ou qualquer outro método.
Parafraseando as palavras de um renomado budista, Rato Khen Rinpoche, trazer ciência para o campo da religião não significa mudar o sistema de crença, já que ambos caminhos são paralelos. O persa e líder espiritual dos bahá’ís, ‘Abdul-Bahá, afirmou, em Sua viagem a Londres em 1912, que “Religião e ciência se entrelaçam uma com a outra e não podem ser separadas. Estas são as duas asas com as quais a humanidade deve voar. Uma asa só não é suficiente.”
Foi Einstein que disse que “a Ciência sem a Religião é coxa, a Religião sem a Ciência é cega.” Lev Tolstoy nos recorda que “a religião revela o sentido da vida e a ciência apenas aplica o sentido no decurso das circunstâncias”.
O novo paradigma de 2019
Com isso, proponho a seguinte pergunta: quais circunstâncias o novo ano trará para refletir sobre o sentido de nossas vidas?
Há cem anos apenas, o romance tomou novas formas. Automóveis permitiram que os rapazes deixassem de encontrar as jovens em casa (para corteja-las) e começaram a convida-las para sairem. Encontros e namoros nasciam. Consequentemente abriu-se o caminho para que Margaret Sanger cunhasse o termo “controle de natalidade” e publicasse o livro “O que toda mãe deveria saber”, iniciando um movimento de empoderamento sexual das mulheres (não sem antes ter sido presa!).
Foi em 1918 que mulheres conquistaram também o empoderamento laboral. Alguns anos antes, com a ida dos homens para a Guerra, fábricas e clero estavam vacantes; as mulheres assumiram os postos e quando eles regressaram elas continuaram trabalhando com a mesma qualidade.
Apesar de sua presença no mercado, seus salários continuam sendo inferiores aos dos homens. Exemplo disso são seriados com protagonistas femininas que ganham menos que os personagens masculinos secundários. Em estudo recente a Serasa Experian comprova que menos de metade (43%) das empresas brasileiras são lideradas por mulheres, apesar do seu faturamento ser 35% superior. Os números parecem positivos, mas a verdade é que apensas 30% são gestores de empresas de médio ou grande porte.
Foi há cem anos também que no EUA o presidente enfileirou as lutas pelo direito das mulheres votarem (após 50 anos de ações constantes). Algumas mulheres britânicas ganharam o direito a voto. Na Alemanha o sufrágio feminino é afirmado. No Brasil, as leis tentam igualar as proporções de ambos, como a obrigatoriedade dos partidos de terem candidatas, mas apenas 4% do Senado é composto por mulheres!
Cem anos passaram e toda essa diferença é normalizada!
E se invertermos o cenário? Neste ano organizei o TEDxGoiânia, e o fato de termos tido 12 palestrantes, dos quais 9 eram mulheres foi chocante para muitos potenciais patrocinadores que nos comentavam “mas não havia homens competentes, não?”.
É “normal” termos muitos homens fazendo algo, mostrando algo, estando presentes. Mas quando as mulheres se empoderam, há algo estranho. Jamais esqueço da tira que compara um menino birrento que é chamado de líder nato, e da menina com pulso firme do lado sendo chamada de mimada ou mandona!
Mas o jogo está mudando
O dicionário Merriam-Webster disse que “feminismo” como a palavra mais procurada em 2017. Livros e séries como The Handmaid’s Tale (O conto da Aia), ou os livros de Chimamanda Adichie, sua TED Talk, ao lado da de um homem, Justin Baldone, provocam reflexões como nunca antes. Super-heroínas como Mulher Maravilha dominam o mercado “dos meninos”, enquanto princesas Elsa (de Frozen) se torna a super-princesa. Tudo isso são sinais da mudança.
Nem entramos no fato de 1 mulher morrer a cada dez minutos, segundo relatório recente do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime! Estamos apenas falando da ponta do iceberg. E o caminho a seguir é nosso. Estamos todos num cruzeiro gigantesco, prestes a decidir como agirmos em 2019. Há muito a fazer ainda!
Iremos, juntas e juntos, lutar por um mundo mais justo e equitativo para todas as pessoas, qualquer que seja seu gênero sexual, ou iremos ao encontro do iceberg e morreremos todos juntos?
Como diria Galileu em sua carta em defesa da mudança de pensamento:
Considere isso, quem tiver a verdade ao seu lado, terá a maior vantagem sobre o seu oponente. Consequentemente, não devemos temer os ataques que sejam lançados sobre nós.
Talvez seja isso que 2019 espera de nós: escolhermos. Irmos em frente e vencermos os desafios ou sucumbirmos uma vez por todas apanhando do iceberg do machismo.
Sam Cyrous é psicólogo (09/8178), psicoterapeuta de Casais e Família Logoterapeuta StoryTeller e Curador do TEDxGoiânia