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O que ficou da infância

11.10.2012 - 23:16:46
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Goiânia – Ágatha é a criança com quem mais convivo. Filha da minha prima-irmã de coração, é minha sobrinha de coração. Acho, inclusive, que somos ligadas antes mesmo dela vir ao mundo. Sonhei com a imagem dela antes da Rafa saber que estava grávida. Desde então acompanho seu crescimento, sua formação, sua educação. Hoje ela tem cinco anos, começou a estudar numa escola particular em agosto e a Rafa, há poucos dias, esteve em minha casa e me contou uma situação bem típica. A Ágatha pediu para comprar lanche, ao invés de levar. 


A Ágatha está se comportando muito bem nos últimos meses. Está arrumando a cama sozinha, tomando banho para ir pra escola sem que a Rafa peça e fazendo tarefa com mais facilidade. A Rafa disse que, como ela estava se comportando bem, daria dinheiro para comprar o lanche: dessa vez! A Ágatha ficou tão feliz, mas tão feliz. Encheu a Rafa de beijos. 

Eu e Rafa começamos nos lembrar de nossa infância. De nossas lancheiras com pão de queijo, bolo, bolachas e sucos e, só uma vez na semana, levávamos dois reais para comprar coxinha e coca-cola. E concluímos que a Ágatha só ficou agradecida porque é o esporádico que faz a graça. Quando vira regra, não faz mais sentido. Não há gratidão, não há comemoração. A Rafa foi embora de casa, mas continuei pensando nesse caso.

Preparar lancheiras, proibir de comer lanche na escola e dizer não dá muito mais trabalho que ceder. Lembro-me que minha mãe não deixava que a gente assistisse a Power Rangers porque era bem na hora do almoço. Em casa sempre comemos todos juntos à mesa; sempre foi o momento sagrado de todos se reunirem. Ela gravava o programa (em fita cassete) e depois do almoço assistíamos. O mesmo ela fazia com Sai de Baixo, pra gente não dormir tarde no domingo, porque tinha aula no outro dia. É claro que dá muito mais trabalho. 

O que minha mãe queria, com essas atitudes, é que soubéssemos que nem tudo seria como a gente quisesse. E penso que as crianças cada vez menos sabem o que é ouvir não.  Cheias de sim, crescem achando que tudo podem. Compram lanche da escola quando querem, vêem na TV o que querem e quando querem, ganham o presente que quiserem, comem o que der vontade. No fim das contas, quando têm que sair das asas dos pais, muito sofrem quando descobrem que a vida não é a bolha em que foram criados. Os que não sofrem, dão muito trabalho em todos ambientes que frequenta. Do trânsito ao trabalho. 

Não tenho filhos (ainda), esse texto está longe de ser um manual de como criar filhos e muito menos quero cristalizar um discurso moral. Queria dizer, apenas, que uma infância pode ser muito menos complicada do que imaginam. O que fica na formação da criança, são os nãos na hora certa. E o que fica na memória, são as coisas que os pais nem imaginam. O que fica não é comprar lanche na escola todo dia. É aquele dia que o pai deixou. Não foi comprar aquele super carrinho de controle-remoto em toda e qualquer data comemorativa. Foi naquele natal de 1996.  

Talvez meus pais não saibam disso. Vão descobrir junto com vocês nesse texo. Lá pelos meus seis anos eu queria ganhar um par de patins (roller, para os meus contemporâneos) no dia das crianças. Eu e meus dois irmãos. No bendito dia 12 de outubro eu e minha irmã estávamos sentadas no sofá quando minha mãe e meu pai chegaram com uma caixinha que não cabiam patins. Eram dois ursinhos. Meu pai me olhou nos olhos e falou. “Minha filha, papai não conseguiu te dar patins no dia das crianças. Mas no natal ele vem.” 

Eu peguei o ursinho, fui para o quarto e chorei. Chorei de vergonha (engraçado, estou chorando ao escrever isso). Fiquei triste em ver meu pai acuado em não me dar o que queria. Doeu em mim ver que estava cobrando dele mais do que ele podia me dar. Em vê-lo em uma situação achando que não estava sendo tão bom assim.

Professor, meu pai sempre deu aula à noite. Chegava depois das dez da noite, cansado. Eu e meus irmãos nos escondíamos atrás da cortina, com metade do corpo para fora, exposto, jurando que ele não nos via. Pacientemente, e como se fosse a primeira vez, meu pai perguntava por nós para minha mãe.
“Zete, cadê os meninos?”. Eu quase fazia xixi de ansiedade. Diariamente era assim. Até a gente não ver mais graça nisso.

Em todo tempinho de folga meu pai nos levava para andar de bicicleta no Estádio Serra Dourada. Foi lá onde ele ensinou cada um de nós a se equilibrar sobre duas rodas. Meus irmãos mais, e eu menos. Sempre desequilibrada. As barraquinhas que meu pai armava com cobertores e cadeiras da área eram de uma engenharia que eu ficava impressionada. Por mais que eu tentasse fazer igual, como as dele não existiam. 

Mas os dias mais felizes mesmo eram aqueles de muito calor, que minha mãe e meu pai nos convidavam para jogar sabão na garagem e tomar banho de mangueira escorregando no chão. Ou os dias de frio, em que todo mundo dormia juntinho no quarto deles. 

Da minha mãe, me lembro de quando ela passava na Doce Maior depois de nos buscar na aula de música. Era só de vez em quando. Duas vezes por semana a gente passava lá na frente. Eu fazia figa, caladinha, torcendo praquele dia ser um dos poucos no mês que ela ia parar pra eu comer aquela coxinha com coca-cola. Ou esperava o dia no mês que ela chamava a mim e aos meus irmãos para ir lanchar no Giraffas no Flamboyant. 

Bom, na verdade, nesse dia das crianças tentei trazer minhas melhores memórias. Não me lembrei de nenhum brinquedo, em especial. Não me lembrei, na verdade, de nenhum dia das crianças, fora o que senti vergonha. Eu me lembrei dos nãos ditos na hora certa, que não me doeram. Eu me lembrei que foi o “de vez em quando” que me fez valorizar cada graça dessa vida. E me lembrei que a graça estava na verdade, no que não tinha preço. No que não tinha cifras. No que demandava amor e dedicação, somente.  
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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