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O rabecão e o navio negreiro

19.05.2015 - 09:55:59
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“Veio os homens
e nos pararam
documento por favor
então a gente apresentou
mas eles não paravam
qual é negão? Qual é negão?
o que que tá pegando?
qual é negão? Qual é negão?”
Marcelo Yuka
 
Goiânia – Cada edição do Mapa da Violência divulgada abre um pouco mais a ferida do “racismo à brasileira”. A última, publicada na semana passada, não foge à regra. Sabemos que pretos e pobres sempre foram os protagonistas do banho de sangue que tinge de vermelho as ruas do País, mas assusta constatar que esse abismo social e racial só se aprofunda.
 
O Mapa 2015 demonstra que o número de homicídios só faz aumentar a cada década no País. E que esse aumento se dá, principalmente, dentro da parcela negra e pobre. Enquanto a taxa de homicídios por arma de fogo no Brasil caiu 23% entre os brancos (o recorte vai de 2003 a 2012), entre os negros ela subiu 14,1%.
 
Quase 130 anos após a abolição da escravidão, o racismo à brasileira segue inabalável. Como nos ensina a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, que acaba de lançar “Brasil – Uma biografia”, o brasileiro se considera uma “ilha de democracia racial cercada de racistas por todos os lados”.
 
A afirmação vem reforçada por uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), cujo resultado foi o seguinte: 96% dos entrevistados não se consideram racistas, mas 99% dizem conhecer alguém racista. E esses conhecidos são gente muito próxima, como pais, irmãos, namorados, amigos… Ou seja, o inferno sempre são os outros.
 
Mais fácil que admitir que somos preconceituosos e que, portanto, precisamos lutar diariamente contra isso, preferimos sentar sobre o próprio rabo e apontar o dedo para os demais. Ainda afirmamos orgulhosos que “eu até tenho amigos negros (aqui você pode trocar por qualquer outra minoria)”, usamos o elevador social e elogiamos os negros de “alma branca”.
 
Ocorre que negar a existência de um problema não o fará desaparecer. Ao contrário, é a melhor forma de deixá-lo crescer até chegar o momento em que fica impossível escondê-lo debaixo do tapete.
 
Há quem ache que o racismo à brasileira seja pior do que o existente em países como os Estados Unidos, por exemplo, onde o conflito é absolutamente claro. Sob esse raciocínio, nosso racismo velado seria mais pernicioso (como o vírus invisível que contamina o organismo até matá-lo). Assim como Lilia Schwarcz, tendo a acreditar que não há um racismo melhor que o outro.
 
Não é por coincidência que o morticínio verde-amarelo atinja especialmente a população negra no Brasil. O mesmo ocorre nos presídios, onde 60% da população carcerária é negra, segundo alguns levantamentos (há, sempre, como questionar metodologias e ideologias por trás de estudos do tipo, mas é impossível enganar o que nossos olhos vêem quando entramos em um presídio).
 
Aluns contrapõem e afirmam que os negros também são maioria entre os autores de crimes — portanto, seria "natural" serem maioria nos presídios. Pelo menos em relação aos delitos ordinários que preenchem os telejornais sensacionalistas, a afirmativa parecer ser verdadeira. Mas muitas vezes quem pensa dessa forma se esquece de se perguntar o motivo de ser assim.
 
Várias outras questões correlatas podem ser feitas. Por exemplo, “por que os negros são minorias nos bons cursos universitários?”, “por que a presença deles em altos cargos executivos ainda surpreende?”, “por que mesmo entre vendedores de shopping (olha só: não estamos falando em cargos diretivos, mas em uma função mediana!) há poucos vendedores negros (exceção para lojas de moda “moderninhas”)?
 
O Brasil passou pela desonra de ter uma abolição mais que tardia, mas vergonha maior é manter uma desigualdade tão gritante quase um século e meio depois. O resultado está aí: parafrasenado o Rappa, todo camburão tem muito de navio negreiro.
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por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

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