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O Robô que vence Darwin

15.10.2024 - 08:27:00
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Grata surpresa a animação Robô Selvagem. Confesso que estava completamente por fora e fui, desavisado e sem expectativas, convidado por Felipe.
 
Produção da Dreamworks, dirigido e roteirizado por Chris Sanders – diretor de outras animações menos interessantes como Lilo e Stitch e Como Treinar seu Dragão, o filme é baseado na série homônima de livros infantis escrita por Peter Brown, de que eu tampouco tinha conhecimento.
 
Roz é uma robô desenvolvida para tarefas domésticas que se vê sozinha em uma ilha selvagem. Uma série de acontecimentos acaba fazendo com que tome como sua tarefa cuidar de um filhote de ganso órfão.
 
O oxímoro do título, simples e genial, estabelece a premissa do filme, onde o encontro e choque entre a pura técnica e a natureza selvagem são fertilmente explorados pela narrativa e suscitam reflexões altamente relevantes para os tempos em que vivemos.
 
De maneira irônica, a natureza com que Roz tem que lidar não é a natureza romantizada de paz e equilíbrio não perturbado pela mão humana, e sim o palco darwiniano de uma impiedosa luta pela sobrevivência. Um dos grandes desafios que a robô enfrenta é o de simplesmente proteger a si e a seu filhote de ganso de implacáveis predadores de todo tipo.
 
Instruída pela Mãe Gambá, Roz entende que precisa ensinar o pequeno ganso a nadar e depois a voar para que, quando o inverno chegue, possa fazer a migração sazonal de sua espécie para paragens mais quentes.
 
Com a ajuda de Astuto, uma raposa cuja amargura camufla grande carência e solidão em função do eterno conflito entre as espécies da ilha, Roz aos poucos compreende que seus protocolos de máquina não são suficientes para criar o filho, agora batizado como  Bico Vivo. Com isso, a robô começa a ir além dos seus algoritmos e desenvolve afetos genuínos para sua própria confusão.
 
Nesse processo, Roz acaba por ensinar à própria comunidade de animais da ilha, sempre envolta em brigas, o valor da gentileza e da solidariedade como estratégias de sobrevivência – tema declarado dos livros, segundo o autor Peter Brown.
 
De forma curiosa, não há humanos no filme – somente máquinas e animais. Quando migram, os gansos topam com uma cidade futurista, uma grande estufa protegida por uma cúpula, onde outros robôs conduzem uma agricultura altamente tecnificada, produzindo cereais e comida para sabe-se lá quem. A humanidade foi substituída por robôs? Se sim, para quem os alimentos?
 
Nesse contexto, fica irônico falar que Roz "se humaniza" ao desenvolver afeto por Bico Vivo. É evidente que os personagens, robôs e animais, espelham qualidade humanas. Mas a maior sutileza de Robô Selvagem está no fato de que uma robô ensine aos animais, egoístas por natureza, as possibilidades da cooperação, que acaba por salvar a todos quando, primeiro, um rigoroso inverno se instala na ilha e, depois, no momento em que robôs invadem a invadem para levar Roz.
 
Para além do conteúdo emocionalmente complexo e frequentemente ambivalente que nos faz refletir, o filme traz também um visual sofisticado que foge do lugar-comum das animações 3D que temos visto. Em vez do realismo estilizado da maioria das animações recentes, "uma pintura de Monet em uma floresta de Miyazaki", como definiu o diretor. Por isso, mesmo construindo geometricamente os personagens e cenários, a opção é por texturas que remetem a superfícies pintadas à mão. O resultado é muito bonito.
 
Em termos narrativos, buscando outra analogia de encontro entre filmes, Robô Selvagem é uma espécie de mistura de Onde Vivem os. Monstros e Bambi, ao mesmo tempo um melodrama de superação e amor familiar e uma fábula moral ambígua baseada em personagens cheios de sombras.
 
Entre as questões inevitáveis, o filme nos faz pensar sobre o que, afinal, define o humano? Quais as possibilidades da tecnologia para nos ajudar a sobreviver em um planeta que conseguimos "estragar"? Quem pode trazer de volta a generosidade e a gentileza em um mundo onde parecem cada vez mais escassos? O que nos ajuda a superar nossas diferenças e nos encontrarmos?
 
Por trás do aparente melodrama ingênuo de superação, Robô Selvagem é um filme cheio de sutilezas e uma experiência emocionante e esteticamente impressionante.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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