Goiânia – Estive pela primeira vez em Salvador agora em janeiro, a uma semana do badalado carnaval. Penso que foi dessas cidades que me impactaram e o que seguem abaixo são apenas impressões de viajante. Eu não tinha algumas dimensões, por exemplo, do tamanho da cidade e da força histórica e cultural que pulsa em todos os cantos. Bem, e era pré-carnaval. Pude sentir um gostinho dessa festa por ali nas festas no Pelourinho e num bloco pela tão agitada Barra. A vida cultural daquilo é realmente uma loucura.
Salvador é dessas cidades que nos remonta a todo tempo 500 anos atrás. Aliás, como menina nascida em Goiânia, cidade novinha, sempre me surpreendo com essas cidades antigas. Mas o que mais me angustiou foi sentir que todo período pré-1889 é tão fresco ainda. Por ali, parece que eu via ainda a Bahia de Jorge Amado. Ou, se me contassem que a abolição aconteceu há 20 anos, acreditaria.
A história daquele lugar carrega força e violência e parece que, por vezes, eu sentia isso. Como ao chegar ao Pelourinho, numa distância de 10 metros, na mesma linha, uma estátua de um bispo e, logo a frente, de Zumbi. As duas forças ocupando o mesmo lugar. Ou o Mercado Modelo onde hoje se vende cocada e fitinhas do senhor do Bonfim guarda a lenda de que, quando no século XIX era uma alfândega, os guardas ouviam barulhos de correntes de escravos no porão.
A capital é negra. Capoeira, afoxé, candomblé, orixá. A herança existe e pulsa em cada canto da cidade, mas, surpreendentemente, com menos reconhecimento que se espera depois de 100 anos de abolição da escravidão. Lembram-se bem do episódio em 2003 quando, na ocasião do dia da consciência negra, foram colocadas esculturas de orixás no lago do Parque Vaca Brava em Goiânia do artista baiano Tati Moreno e, em seguida, apedrejadas por grupo de evangélicos. Até que a prefeitura cedeu, e as retirou de lá.
Em Salvador também há as mesmas esculturas de orixás num dique. Ingenuamente, comentei com minha amiga soteropolitana como era diferente estar em Salvador e ver aqueles orixás ali, porque em Goiânia tentaram colocar e logo tiveram que retirar. “Mas foi a maior briga para deixarem esses orixás aqui”, comentou. Nada para mim justifica a intolerância e falta de reconhecimento de culturas que formam a identidade brasileira. Mas, vai lá, não é surpreendente em Goiânia, cidade de menos de 90 anos, capital de um estado agrário, uma reação dessas. Mas em Salvador? Por onde os negros chegaram, capital mais negra do país, o que justificaria?
Por muitas vezes Salvador me fez lembrar de Johannesburgo, na África do Sul, onde o Apartheid teve seu fim em 1990. Teoricamente, nunca vivemos um Apartheid no Brasil. Mas, sorrateiro, ele existiu e ainda existe. Pelo centro da cidade, muito comércio ambulante. Na informalidade, lá estão eles, os negros. Onde há pobreza em Salvador, lá estão os negros em massa, tal como em Johannesburgo. As cenas das duas capitais se confundiam em minha cabeça, tamanha a semelhança.
O carnaval de lá, não seria diferente. As cordas que separam quem pode pagar pela folia de quem não pode são, no mínimo, assustadoras. Um carnaval de massa que está longe de ser popular diante dos preços que se paga para cair na folia. Discutindo sobre isso com uma amiga, lá em Salvador, ela comentou comigo sobre essa foto abaixo, que agora tem circulado pelas redes sociais.

A foto não mostra o carnaval de Salvador, apenas. Ela mostra Salvador. Os negros inventam o ritmo, a música, a arte e depois são excluídos do carnaval que tem início com eles próprios. Continuam servindo os brancos, com outras leis e regras, mas ainda são eles os serviçais. Continuam sendo separados dos sinhozinhos. Não estão nos espaços de poder como os brancos. Nem prefeito, nem governador são negros. Continuam dominando os subempregos. Estão nos guetos e ainda buscam reconhecimento pela sua cultura, sua crença e sua arte. Violência é questão de lógica: onde há pobreza, onde há desigualdade discrepante, lá está ela.
Talvez essa foto justifique o clima de tensão que é andar por Salvador. Não assisti a nenhuma cena mais tensa que um furtozinho aqui e outro ali durante uma pré-folia. Mas fui quase aterrorizada para tomar todos os cuidados possíveis. Assim como vi o temor ser parte do cotidiano das pessoas.