Logo

O sorrateiro Apartheid de Salvador

17.02.2013 - 11:05:37
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Estive pela primeira vez em Salvador agora em janeiro, a uma semana do badalado carnaval. Penso que foi dessas cidades que me impactaram e o que seguem abaixo são apenas impressões de viajante. Eu não tinha algumas dimensões, por exemplo, do tamanho da cidade e da força histórica e cultural que pulsa em todos os cantos. Bem, e era pré-carnaval. Pude sentir um gostinho dessa festa por ali nas festas no Pelourinho e num bloco pela tão agitada Barra. A vida cultural daquilo é realmente uma loucura.  

Salvador é dessas cidades que nos remonta a todo tempo 500 anos atrás. Aliás, como menina nascida em Goiânia, cidade novinha, sempre me surpreendo com essas cidades antigas. Mas o que mais me angustiou foi sentir que todo período pré-1889 é tão fresco ainda. Por ali, parece que eu via ainda a Bahia de Jorge Amado. Ou, se me contassem que a abolição aconteceu há 20 anos, acreditaria. 

A história daquele lugar carrega força e violência e parece que, por vezes, eu sentia isso. Como ao chegar ao Pelourinho, numa distância de 10 metros, na mesma linha, uma estátua de um bispo e, logo a frente, de Zumbi. As duas forças ocupando o mesmo lugar. Ou o Mercado Modelo onde hoje se vende cocada e fitinhas do senhor do Bonfim guarda a lenda de que, quando no século XIX era uma alfândega, os guardas ouviam barulhos de correntes de escravos no porão. 

A capital é negra. Capoeira, afoxé, candomblé, orixá. A herança existe e pulsa em cada canto da cidade, mas, surpreendentemente, com menos reconhecimento que se espera depois de 100 anos de abolição da escravidão. Lembram-se bem do episódio em 2003 quando, na ocasião do dia da consciência negra, foram colocadas esculturas de orixás no lago do Parque Vaca Brava em Goiânia do artista baiano Tati Moreno e, em seguida, apedrejadas por grupo de evangélicos. Até que a prefeitura cedeu, e as retirou de lá. 

Em Salvador também há as mesmas esculturas de orixás num dique. Ingenuamente, comentei com minha amiga soteropolitana como era diferente estar em Salvador e ver aqueles orixás ali, porque em Goiânia tentaram colocar e logo tiveram que retirar. “Mas foi a maior briga para deixarem esses orixás aqui”, comentou. Nada para mim justifica a intolerância e falta de reconhecimento de culturas que formam a identidade brasileira. Mas, vai lá, não é surpreendente em Goiânia, cidade de menos de 90 anos, capital de um estado agrário, uma reação dessas. Mas em Salvador? Por onde os negros chegaram, capital mais negra do país, o que justificaria?

Por muitas vezes Salvador me fez lembrar de Johannesburgo, na África do Sul, onde o Apartheid teve seu fim em 1990. Teoricamente, nunca vivemos um Apartheid no Brasil. Mas, sorrateiro, ele existiu e ainda existe. Pelo centro da cidade, muito comércio ambulante. Na informalidade, lá estão eles, os negros. Onde há pobreza em Salvador, lá estão os negros em massa, tal como em Johannesburgo. As cenas das duas capitais se confundiam em minha cabeça, tamanha a semelhança. 

O carnaval de lá, não seria diferente. As cordas que separam quem pode pagar pela folia de quem não pode são, no mínimo, assustadoras. Um carnaval de massa que está longe de ser popular diante dos preços que se paga para cair na folia. Discutindo sobre isso com uma amiga, lá em Salvador, ela comentou comigo sobre essa foto abaixo, que agora tem circulado pelas redes sociais. 
 

A foto não mostra o carnaval de Salvador, apenas. Ela mostra Salvador. Os negros inventam o ritmo, a música, a arte e depois são excluídos do carnaval que tem início com eles próprios. Continuam servindo os brancos, com outras leis e regras, mas ainda são eles os serviçais. Continuam sendo separados dos sinhozinhos.  Não estão nos espaços de poder como os brancos. Nem prefeito, nem governador são negros. Continuam dominando os subempregos. Estão nos guetos e ainda buscam reconhecimento pela sua cultura, sua crença e sua arte. Violência é questão de lógica: onde há pobreza, onde há desigualdade discrepante, lá está ela.

Talvez essa foto justifique o clima de tensão que é andar por Salvador. Não assisti a nenhuma cena mais tensa que um furtozinho aqui e outro ali durante uma pré-folia. Mas fui quase aterrorizada para tomar todos os cuidados possíveis. Assim como vi o temor ser parte do cotidiano das pessoas.
 

As contradições e contrastes de Salvador fazem da capital baiana uma cidade forte, emocionante e indignante. Parece toda a graça estar rifada a um preço. Os acarajés, os afoxés, a beleza e vida do Pelourinho terem na outra ponta o peso da desigualdade e da marginalidade que os negros ainda vivem. A esperança é de um dia isso ser passado. E essa foto entrar para os livros para se mostrar quão bizarra Salvador já foi.   
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]