Observei certo rebuliço em torno do financiamento para a construção Museu do Trabalho e do Trabalhador, apelidado maldosamente de “Museu de Lula”. Nego está “indignado” com a verba pública investida de R$ 18 milhões no projeto cultural, sendo que R$ 14,4 mi serão do Governo Federal e R$ 3,6 mi da prefeitura de São Bernardo do Campo (SP), município que o sediará. Balela pura esses questionamentos. Mais que isso, miopia social. Talvez vá até além, o mais puro preconceito de classe.
É clara e notória a importância do movimento sindical do ABC paulista para a história do Brasil, independente de cores partidárias. Negar que ali surgiu algo que mudou profundamente (se de forma positiva ou negativa, deixo a seu cargo) nosso país, ou é burrice, ou é torpeza. Confesso que nesse caso não acredito muito na hipótese da estupidez, logo… A relevância histórica do que aconteceu naquelas greves do final da década de 1970 foi tamanha que, veja você, foi a escola política de um presidente da República, pouco mais de 20 anos depois.
Além da crítica de cunho partidário óbvia, afinal tanto a União quanto a cidade de São Bernardo são administradas por governos petistas, existe ainda a crítica de cunho social. É gente que pensa que só rico pode ter memória no Brasil. Observe que a maioria dos nossos museus tem nomes de poderosos, está nas casas que foram de poderosos ou preserva a lembrança só dos poderosos. Sempre quem conseguiu chegar ao poder consegue resguardar sua memória. Normalmente, os perdedores têm sua memória aniquilada. Ninguém conta a história de quem não chegou lá. E, via de regra, o povo não chega lá. Movimentos populares, camponeses, de luta pela terra, de reocupação urbana, de resistência são jogados na marginalidade do esquecimento. Para dar uma singela idéia do que estou falando, ao invés de preservar toda região onde foi construído o vilajero de Canudos e aconteceram todas as batalhas que levaram a seu ocaso, construíram um açude que cobriu todas as ruínas.
Cabe a pergunta: fizeram o mesmo, por exemplo, na casa onde morou a família real brasileira de Dom Pedro I e II? Outro questionamento pertinente: será que o movimento sindical do ABC teria seu memorial caso em suas entranhas não tivesse sido forjado um presidente do Brasil? Você, cara esperto que é, sabe a resposta.
Precisamos cada vez mais democratizar a formação de novos museus para preservação da história, seja ela oficial ou popular. Entendo que esse museu em São Bernardo do Campo é um híbrido. Tem sua nascente popular e de combate ao establishment, contudo se transforma e adere ao status quo, compõe com forças que antes eram contrárias e conquista o poder nacional. Mesmo se ele não tivesse, digamos, “chegado lá”, seria necessário que se preservasse essa memória. Qualquer crítica que perceba como irrelevante essa história para o Brasil é, obviamente, capciosa.