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O Teatro dos Espantalhos

16.09.2025 - 08:20:00
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Os desdobramentos do terrível assassinato do influenciador de extrema-direita Charlie Kirk seguiram, infelizmente, o roteiro previsível da polarização identitária em que vivemos. A direita acusou irresponsavelmente a esquerda pelo homicídio. Parte da esquerda, por sua vez, reagiu com sarcasmo, chegando a zombar do crime sob o argumento de que, com seu discurso extremista, Kirk “teria tido o que merecia”.
 
Assassinatos relacionados a extremismo nos EUA conforme a afiliação do criminoso (2015–2024). Fonte: Paul Krugman, a partir de dados da ADL.
 
Parece que entramos em uma armadilha sem saída. Como mostrou o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman em artigo no Substack, entre 2015 e 2024, os Estados Unidos registraram 429 assassinatos relacionados a extremismo político. Desses, 76% foram perpetrados por indivíduos ligados à extrema-direita, 18% por extremistas islâmicos e apenas 4% por extremistas de esquerda, segundo dados da ADL, entidade dedicada ao combate ao extremismo em todas as suas formas, com especial atenção ao antissemitismo.
 
Os números desmontam espantalhos e vieses de confirmação. O problema, todavia, é que basta um idiota de esquerda celebrar em público o assassinato de Kirk para que todo idiota de direita se sinta autorizado a acreditar que a esquerda, de fato, é responsável pela violência política com seus próprios discursos de ódio.
 
É preciso lamentar esse beco sem saída e conclamar à razão. Mas, dissolver essa calcificação ideológica — para usar a expressão de Felipe Nunes e Thomas Traumann — exige mais do que a denúncia das simetrias que prevalecem: começa pelo que podemos fazer nos círculos próximos, em nossos próprios campos políticos.
 
A esquerda precisa parar de generalizar, enxergando fascismo em todo eleitor de Bolsonaro — entre os quais está um contingente imenso de pobres com os quais afirma se preocupar. Precisa rever seu preconceito contra evangélicos, que encontram nas igrejas não apenas identidade, mas também segurança social diante da ausência do Estado. Precisa repensar o desprezo pela cultura sertaneja, expressão legítima das aspirações de milhões de brasileiros ligados ao mundo rural. E os ambientalistas precisam parar de demonizar o agronegócio como um todo, reconhecendo que o setor é diverso: há criminosos que saqueiam nossos recursos naturais e matam indígenas, mas também produtores que buscam transições para a sustentabilidade.
 
A direita, por sua vez, precisa abandonar seus próprios espantalhos: o comunismo, o abortismo, ou qualquer caricatura que use para atacar quem não apoia Bolsonaro. Entre os que rejeitam o ex-presidente, há muitos que tampouco se identificam com Lula, mas não aceitam a intolerância ou a hipocrisia da família Bolsonaro. A direita precisa parar de hostilizar universidades, cujo valor maior segue sendo a liberdade de pensamento — base da ciência que impulsionou, por exemplo, a própria agricultura brasileira. Precisa também deixar de proteger, em suas fileiras, quem promove ataques contra religiões de matriz africana, sob pena de não poder exigir respeito às igrejas evangélicas. E o agronegócio precisa se comprometer de fato com a pauta ambiental, expurgando os que usam o progresso como fachada para crimes.
 
Em ambos os lados, nos tornamos reféns do pior de nós mesmos. Pior ainda: a própria democracia tornou-se refém, usada como cortina de fumaça nos discursos de extremistas. Bolsonaro, um golpista covarde, vive pronunciando a palavra. Da mesma forma, um Jones Manoel, que ataca a democracia diariamente enquanto nega os horrores da União Soviética em canais de mídia respeitáveis. Da mesma forma que um Silas Malafaia incita violência embrulhando-a no rótulo de “defesa da democracia”. Ou que setores da esquerda tentam apresentar o Hamas como libertador democrático do povo palestino — quando na prática também sequestra sua própria gente. Não é preciso defender terroristas para reconhecer que Netanyahu conduz um genocídio em Gaza.
 
As pesquisas são claras: a maioria das pessoas valoriza a democracia e gostaria que o diálogo voltasse a ser a tônica da política. Mas, sequestrados pelos extremos, todos parecemos ter medo de ser razoáveis.
 
Ainda assim, se as simetrias são parte da engrenagem da polarização, é necessário desfazê-las quando são falsas. A esquerda pode ter seus arroubos autoritários e ditadores de estimação, mas não foi ela que, historicamente, rasgou a ordem democrática no Brasil: foi a direita. Lula e o PT têm inúmeros defeitos, incluindo a leniência com a corrupção, mas nunca ameaçaram a democracia. Pelo contrário, forjado no jogo democrático, Lula soube articular uma frente ampla em 2022 para derrotar a ameaça golpista de Bolsonaro. Já Bolsonaro, apesar de ter sobrevivido a um atentado em 2018, apoiou planos para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. Quem minimiza tudo isso, na prática, declara que não gosta de democracia.
 
 
O mecanismo não é perfeitamente simétrico, mas os afetos e espantalhos que o sustentam o são. E cabe à maioria democrática de ambos os lados — os adultos na sala — a responsabilidade de desmontar esse teatro no qual, hoje, somos todos atores involuntários.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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