Festa de Natal em família. Quilos e quilos de comida na mesa. Litros e litros de álcool prontos para beber. Uma molecada sem fim correndo, brigando, brincando, chorando, gritando, gargalhando por todos os cantos. Uma dúzia de cachorros latindo. Setenta rodinhas de conversas animadíssimas. Tudo igual sempre foi. Nada difere daquilo que conheço desde que nasci. Mas agora o espírito é outro. E por um motivo claro: o tempo passou e muito mudou.
Nas primeiras festas de Natal que tenho memória, a expectativa maior era pelos presentes que eu ganharia. Como toda criança de classe média baixa, sabia que não seria aquele tão desejado que o amigo ricão tinha em casa e não dava valor. Mas eu sabia que seria divertido. Sempre era. A expectativa para começar a brincar na manhã do dia 25 era gigante. E minha mãe ficava ali gritando para eu não quebrar/perder/sujar logo no primeiro dia. Normalmente era inútil. Eu sempre fazia tudo errado.
Na adolescência, a perspectiva mudou. O olhar emburrado de canto típico da puberdade se fez presente. Com marra, mau humor e bico típicos de quem recebe um oceano de hormônios nas artérias. Nesse momento, tudo era chato. A reunião era chata, as músicas eram chatas, o papo era chato, a comida era chata e os presentes que miavam enquanto os pelos do rosto apareciam eram chatos. O CD do Black Sabbath que eu queria não vinha do Papai Noel. Para conseguir o objeto de desejo era preciso trabalhar e virar grana para comprar o disco na Sonic Records.
O tempo passou e uma nova perspectiva apareceu. Com a plenitude adulta, a paternidade e as contas que durarão mais tempo do que você já teve de vida, o grande barato das festas natalinas é observar a expectativa das crianças. O que me diverte hoje é ver as filhotas ansiosas, pensando sobre os presentes, admirando a decoração e contando os segundos para o dia da festa. Na ocasião, a algazarra dos primos é mais divertida do que quando eu era partícipe. A sensação de pertencimento a algo, de já ter vivido aquilo da mesma forma e observar que a prole que amo está tendo a mesma experiência é fantástico. Isso é o que emociona hoje.
Fiquei um tempo olhando também para meus pais e avós durante a festa. Naturalmente, a sensação deles é diferente, observando netos e bisnetos vivendo tudo aquilo que eles já viveram. Cíclico e bonito. Talvez essa seja a graça da vida: ver quem você ama na situação que você já viveu. A cada ano, mudamos de categoria nas festas de final de ano. A grande sacada é saber curtir cada fase de forma plena, pois, tal qual ponteiros do relógio, o que passou não volta. Igual o leito de um rio.